Quanto
à certeza pessoal de Jung com relação à continuidade da consciência, após a
morte física, leiamos o que escreveu Marie-louise von Franz, sua discípula
desde os dezoito anos de idade, e que sempre esteve ao seu lado, participando
ativamente dos seus estudos e privando de sua intimidade: “Embora considerasse
os ‘espíritos’, nesse período inicial, ‘apenas’ como complexos psíquicos, Jung
mudou sua postura em sua obra posterior. É difícil perceber como um fantasma
“vinculado a um lugar”, por exemplo, possa ter sido evocado pelos complexos de
uma pessoa (Franz, 1997, p. 54).
E,
finalmente, o próprio Jung escreveu o seguinte, em carta ao Dr. Fritz Künke, de
Los Angeles, na Califórnia, sobre a forma pensava sobre o assunto:
Certa vez conversei longamente em Nova Iorque com
um amigo de William James, Prof. Hyslop, sobre a questão da prova e da
identidade. Ele admitiu que, considerando todos os fatores, a totalidade desses
fenômenos metafísicos seria melhor explicada pela hipótese dos espíritos do que
pelas qualidades e peculiaridades do inconsciente. Com base em minhas próprias
experiências, preciso dar-lhe razão neste aspecto. Em cada caso particular
preciso ser necessariamente cético, mas no geral devo conceder que a hipótese
dos espíritos traz melhores resultados na prática do que outra qualquer (Jung,
2002, p. 35).
Em
1956, respondendo a um senhor H. J. Barret, dos Estados Unidos, escreve Jung
sobre sua crença na imortalidade da alma:
Ainda que meu tempo seja escasso e minha idade
avançada um fato real, tenho gosto em responder às suas perguntas. Não são
fáceis como, por exemplo, a primeira: se eu acredito numa sobrevivência pessoal
após a morte. Não poderia dizer que acredito nela, pois não tenho o dom da fé.
Só posso dizer se sei alguma coisa ou não.
1. Sei que a psique possui certas qualidades que
transcendem os limites do tempo e do espaço. Em outras palavras, a psique pode
tornar elásticas essas categorias, ou seja, 100 milhaspodem ser reduzidas a uma
jarda, e um ano a poucos segundos. Isto é um fato do qual temos todas as provas
necessárias. Além disso, há certos fenômenos post-mortem que eu não consigo
reduzir a ilusões subjetivas. Por isso, sei que a psiquê pode funcionar sem o
empecilho das categorias de espaço e tempo. Ergo ela própria é um ser
transcendental e, por isso, relativamente não espacial e “eterna”. Isto não
significa que eu tenha qualquer tipo de certeza quanto à natureza
transcendental da psique. A psique pode ser qualquer coisa.
2. Não há razão alguma para supor que todos os
chamados fenômenos psíquicos sejam efeitos ilusórios de nossos processos
mentais.
3. Não acho que todos os relatos dos chamados
fenômenos miraculosos (como precognição, telepatia, conhecimento supranormal,
etc.) sejam duvidosos. Sei de muitos casos em que não paira a mínima dúvida
sobre sua veracidade.
4. Não acho que as chamadas mensagens pessoais dos
mortos devam ser rechaçadas in globo como ilusões. Immanuel Kant disse certa
vez que duvidava de toda história individual sobre fantasmas, etc., mas, se
tomadas em conjunto, havia algo nelas... Eu examino minuciosamente o meu
material empírico e devo dizer que, entre muitíssimas suposições arbitrárias,
há casos que me fazem titubear. Tomei como regra aplicar a sábia frase de
Multatuli: Não existe nada que seja totalmente verdadeiro, nem mesmo esta frase
(Jung, 2003, pp. 53-54).