segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Quando o mal gera o bem


            Com o Evangelho Pneumático[1] Consolidou-se o trabalho de Paulo de Tarso, consciente ou inconsciente, de promover o sincretismo entre a mensagem judia de Jesus e o politeísmo. Nunca isto seria possível se a mensagem de Jesus permanecesse, como queriam o Apóstolos, circunscrita ao âmbito judaico. Ao que tudo indica, o plano de Jesus era, primeiramente consolidar o seu movimento entre os judeus, o que aconteceu razoavelmente bem, como se pode ver lendo o Atos dos Apóstolos. Em seguida, transplanta-lo para o mundo não judeu. Desde o início, a Comunidade do Novo Caminho, ou seja, da nova seita do Judaísmo, semelhante ao Caminho dos Fariseus, Caminhos dos Saduceus, Caminho dos Essênios, etc. Mas, para isso tinham de acontecer tinham de ser vencido a resistência judia de fraternização com os politeístas. Com a assimilação de judeus oriundos da diáspora na comunidade, muitos deles escravos libertos e gregos, o preconceito dos judeus nascidos na Palestina contra os que viveram entre os infiéis, logo se fez  presente na nova comunidade: Ora, naqueles dias, crescendo o número dos discípulos, houve uma murmuração dos gregos contra os hebreus, porque as suas viúvas eram desprezadas no ministério quotidiano (Atos 6, 1). Estes não ficaram apenas na dissidência e reclamações interna corporis, mas começaram a estragar isso numa sinagoga separada feita para eles, o que já mostra o preconceito de que eram vítimas: uma Sinagoga dos Libertos, ou seja, de judeus que havia sido escravos, cuja liberdade, na maioria dos casos havia sido comprada. Mas eles nunca se livravam da marca, inclusive física pois eram marcados a ferro em brasa, da humilhante, dó opróbio, que tiveram a desventura de sofrer, pois o pensamento religioso era que eles passaram por isso por castigo de Deus, logo mereceram isso. Semelhante ao que dizem os espíritas em relação aos que nascem com restrições físicas ou que sofrem doenças graves ou acidentes e perdas graves na família; sofredores transformados em criminosos, por uma fantasiosa e preconceituosa Lei de Causa e Efeito, ou Karma, cuja origem está na dominação dos Dravidianos pelos Arianos, tendo dominadores criado castas, e inventaram que todos estavam na casta que mereciam, pelas ações passadas (carma significa atos, ações). E tinham de aceitar, resignadamente, sua condição sem se rebelar, pois somente assim, na outra existência, renasceriam numa vasta melhor, ou retornariam àquela da qual caíram!

            Continuando o que estava escrevendo, é entre sinagogas de judeus, da diáspora, de diversas regiões, e um deles que pertencia à Comunidade do Novo Caminho,  que surge uma grande divergência:  

E Estêvão, cheio de fé e de poder, fazia prodígios e grandes sinais entre o povo. E levantaram-se alguns que eram da sinagoga chamada dos libertinos, e dos cireneus e dos alexandrinos, e dos que eram da Cilícia e da Ásia, e disputavam com Estêvão. E não podiam resistir à sabedoria, e ao espírito com que falava. Então subornaram uns homens, para que dissessem: Ouvimos-lhe proferir palavras blasfemas contra Moisés e contra Deus. E excitaram o povo, os anciãos e os escribas; e, investindo com ele, o arrebataram e o levaram ao conselho. E apresentaram falsas testemunhas, que diziam: Este homem não cessa de proferir palavras blasfemas contra este santo lugar e a lei; porque nós lhe ouvimos dizer que esse Jesus Nazareno há-de destruir este lugar e mudar os costumes que Moisés nos deu (Atos 6, 8-14).

            

Observe-se de pronto uma coisa: Estevão era do grupo dos que foram indicados para gerenciar a distribuição dos recursos dentro a Comunidade, quando da reclamação citada: 

E os doze, convocando a multidão dos discípulos, disseram: Não é razoável que nós deixemos a palavra de Deus e sirvamos às mesas. Escolhei pois, irmãos, de entre vós sete varões de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria, aos quais constituamos sobre este importante negócio. Mas nós perseveraremos na oração e no ministério da palavra. E este parecer contentou a toda a multidão, e elegeram Estêvão, homem cheio de fé e do Espírito Santo, e Filipe, e Prócoro, e Nicanor, e Timon, e Pármenas e Nicolau, prosélito de Antioquia; E os apresentaram ante os apóstolos, e estes, orando, lhes impuseram as mãos (Atos 6, 2-6).

            Observe-se, pelos nomes, e pela própria indicação, que todos eles eram da diáspora, pois a reclamação nascera deles, e foram os que indicaram. Ora, os Apóstolos haviam se preservado o privilégio da palavra, ou seja, de divulgação dos princípios estabelecidos por Jesus. Afinal eles haviam convivido com ele, durante os três anos de sua vida pública. Mas Estevão começou a se destacar pelos pródigos e sinais, ou seja, fazia curas e fenômenos eram produzidos por seu intermédio. Outro pormenor a se observar, é que os que reclamavam nunca haviam reclamado contra os Apóstolos. Por que isto? Porque Estevão atraia a atenção sobre eles, que já sofriam pesada discriminação, pois seu atos e palavras, naturalmente, eram vinculados a uma judeu que havia sido condenado pelo Sinédrio e pelos romanos. Na verdade, o que os motivou foi o medo de serem ainda mais perseguido. Que as autoridades judaicas se aproveitassem do que estava acontecendo, tendo um deles como personagem central, e transformassem a raiva e preconceito que sentiam por eles em perseguição ativa. Eles agiram em defesa própria. Foi um ato mesquinho, mas de sobrevivência. Foi uma mensagem à população que dizia: Ele é um de nós, não nos representa! Nós somos judeus obedientes a Lei de Moisés, e não concordamos com Estevão. No momento em que tem de fazer sua defesa, ele faz um discurso, onde resume a história do povo, como se encontra no que denominamos “Antigo Testamento”, e nele termina por mostrar como os líderes sempre traíram os princípios da Lei, e com uma forte invectiva: 


Homens de dura cerviz, e incircuncisos de coração e ouvido; vós sempre resistis ao Espírito Santo; assim vós sois como vossos pais. A qual dos profetas não perseguiram vossos pais? Até mataram os que anteriormente anunciaram a vinda do Justo, do qual vós agora fostes traidores e homicidas; vós, que recebestes a lei por ordenação dos anjos, e não a guardastes. E, ouvindo eles isto, enfureciam-se em seus corações, e rangiam os dentes contra ele (Atos 7, 51-54).

            É  claro que, após essa denúncia seu destino era a execução. Mas ele ainda acrescenta mais. Motivos: 


Mas ele, estando cheio do Espírito Santo, fixando os olhos no céu, viu a glória de Deus, e Jesus, que estava à direita de Deus; e disse: Eis que vejo os céus abertos, e o Filho do homem, que está em pé à mão direita de Deus. Então, eles gritaram com grande voz, taparam os seus ouvidos, e arremeteram unânimes contra ele (Atos, 7, 55-57).

Ou seja, nem precisaram deliberar, a sentença foi feita à revelia dos protocolos tradicionais, pois o crime de blasfêmia era, de todos, o pior. O próprio Jesus foi condenado por esse crime, por dizer palavras semelhantes. 

Então:

 

E, expulsando-o da cidade o apedrejavam. E as testemunhas depuseram os seus vestidos aos pés de um mancebo chamado Saulo. E apedrejaram a Estêvão, que em invocação dizia: Senhor Jesus, recebe o meu espírito.E, pondo-se de joelhos, clamou com grande voz: Senhor, não lhes imputes este pecado. E, tendo dito isto, adormeceu (Atos 7, 58-60).

 

            Por incrível que possa parecer ao senso comum, que sempre espera que as coisas espirituais aconteçam de acordo com a mais alta moralidade, o movimento de Jesus começou com sua prisão, tortura e assassinato. E o Cristianismo teve início da mesma forma, mas com uma diferença, enquanto Jesus era um ser humano altamente ético e moral, o fundador do cristianismo começou como cúmplice de um assassinato, perseguidor fanático e torturador. E fez mais pela divulgação do ensino de Jesus por todo o mundo greco-romano, do que todos os Apóstolos juntos.


[1] Do grego pneuma, ou seja, Evangelho Espiritual.

sábado, 20 de fevereiro de 2021

Significado do ritual do casamento!

 “Tenho um vaso, presumivelmente datado do século I, no qual estão representadas as três formas de união do homem e da mulher. No primeiro, um homem e uma mulher estão de pé um em frente ao outro, e o homem segura uma mandrágora (o alemão Alraun) que é um amuleto de amor, e nas costas dele está uma sombra, para indicar que um demônio obviamente insinuou aquela magia: essa é a união por meio de um feitiço mágico. 

Depois, do outro lado, está a representação de um casamento pagão, considerado pecaminoso, e ali o homem segura um garfo com três pontas, um tridente, o símbolo de Netuno. E no centro está representada a união cristã do homem e da mulher; ali um peixe vertical está entre eles e eles tocam as mãos através do peixe, que é o matrimonium em Christi, o casamento em Cristo. Sabe-se que o casamento cristão não é uma união exclusivamente de homem e mulher, mas é uma união com Cristo entre eles. 

É claro que nosso casamento moderno não é mais uma união em Cristo, e isso é um erro. A união imediata do homem e da mulher é muito perigosa: deve haver uma mediação, seja ela qual for. Portanto, a Igreja Católica mantém muito sabiamente o poder de interferência; o padre está sempre entre, representando a igreja, o corpo de Cristo entre um casal. 

E uma vez que não temos mais nada disso em nossa maravilhosa civilização, inventamos como remédio esses malditos analistas que se misturam com não sei quantos casamentos. Nós, pobres analistas, lidamos com todos os problemas do mundo” (NIETZSCHE’S ZARATHUSTRA NOTES OF THE SEMINAR GIVEN IN 1934-1939 BY C. G.JUNG, vol. II, posição 6469, no e-book da Amazon. Trad Djalma Argollo).

Quem erra aprende!

 Um certo homem tinha dois filhos. E o mais moço deles disse ao pai: Pai, dá-me a parte da fazenda que me pertence. E ele repartiu por eles a fazenda. 

E, poucos dias depois, o filho mais novo, ajuntando tudo, partiu para uma terra longínqua, e ali desperdiçou a sua fazenda, vivendo dissolutamente. E, havendo ele gasto tudo, houve naquela terra uma grande fome, e começou a padecer necessidades. E foi, e chegou-se a um dos cidadãos daquela terra, o qual o mandou para os seus campos a apascentar porcos. E desejava encher o seu estômago com as bolotas que os porcos comiam, e ninguém lhe dava nada.

E, tornando em si, disse: Quantos jornaleiros de meu pai têm abundância de pão, e eu aqui pereço de fome! Levantar-me-ei, e irei ter com meu pai, e dir-lhe-ei: Pai, pequei contra o céu e perante ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; faz-me como um dos teus jornaleiros.

E, levantando-se, foi para seu pai; e, quando ainda estava longe, viu-o seu pai, e se moveu de íntima compaixão, e, correndo, lançou-se-lhe ao pescoço e o beijou.

E o filho lhe disse: Pai, pequei contra o céu e perante ti, e já não sou digno de ser chamado teu filho.

Mas o pai disse aos seus servos: Trazei depressa o melhor vestido, e vesti-lho, e ponde-lhe um anel na mão, e alparcas nos pés; E trazei o bezerro cevado, e matai-o; e comamos, e alegremo-nos; porque este meu filho estava morto, e reviveu, tinha-se perdido, e foi achado. E começaram a alegrar-se.

E o seu filho mais velho estava no campo; e quando veio, e chegou perto de casa, ouviu a música e as danças.
E, chamando um dos servos, perguntou-lhe que era aquilo. E ele lhe disse: Veio teu irmão; e teu pai matou o bezerro cevado, porque o recebeu são e salvo.
Mas ele se indignou, e não queria entrar. E, saindo o pai, instava com ele.
Mas, respondendo ele, disse ao pai: Eis que te sirvo há tantos anos, sem nunca transgredir o teu mandamento, e nunca me deste um cabrito para alegrar-me com os meus amigos; vindo, porém, este teu filho, que desperdiçou a tua fazenda com as meretrizes, mataste-lhe o bezerro cevado.
E ele lhe disse: Filho, tu sempre estás comigo, e todas as minhas coisas são tuas; mas era justo alegrarmo-nos e folgarmos, porque este teu irmão estava morto, e reviveu; e tinha-se perdido, e achou-se (Lc 15, 11-32).

****
O erro nasce das circunstâncias. Levado pela ignorância, pela empolgação, pela ambição ou fascinação, o indivíduo imagina que aquilo que vai fazer lhe trará a satisfação ou lhe possibilitará alcançar o que deseja. Quando realiza o que imaginou e dá errado, verifica o equívoco em que caiu. Normalmente entra em estado de culpa e remorso, podendo inclusive se destruir física, moral, social e/ou espiritualmente. Mas o erro é fator de aprendizado. 
Ninguém pode viver sem errar. Transforme o seu erro em aprendizado, aceite as consequências dele e tome a deliberação de nunca mais cometer erros semelhantes. Está é a grande lição da Parábola do Filho Pródigo! O irmão mais velho, que ficou em casa nos serve igualmente de lição: seu egoísmo, falta de amor fraternal e arrogância demonstram que ele ainda precisa aprender muito sobre a compreensão e a compaixão. 
Aliás, amor fraternal é um sentimento escasso na humanidade. Basta ver o que acontece entre irmãos quando têm de fazer a divisão de uma herança. Uns roubam os outros, se agridem, se levantam calúnias, quando não fazem coisas piores.  

Diversos









 

domingo, 7 de fevereiro de 2021

“E o semeador saiu a semear...”

 Djalma Motta Argollo

 

 

 

“E o semeador saiu a semear...”


 

A parábola refletindo níveis evolutivos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

Introdução

 

No grego, a palavras Parabolaîs, comparações, semelhanças, aproximações, alegorias, desvios, choques, símbolos, tipos, figuras, ilustrações, aforismos, provérbios; traduz o hebraico mâchâl: apresentar uma comparação, um provérbio, uma fábula, e do aramaico mathla: enigma. Tanto o mâchâl como o mathla representavam qualquer espécie de linguagem figurada, que é o sentido da palavra grega parabolé no Novo Testamento, onde apresenta-se como comparação em Lc 5, 36 e Mc 3, 23; como figura simbólica em Hb 9, 9; 11, 19 e Mc 13, 28; como provérbio em Lc 4, 23; 6, 39; como enigma em Mc 7, 17 e como regra em Lc 14, 17. Preferimos traduzir parábola como comparação, pois é, ao nosso ver, o que essas notáveis historietas representam, mesmo nos casos acima, que a rigidez crítica detalha



 


 

 

 

Mateus

 

A comparação do semeador

 

Eis que o semeador saiu a semear. E, enquanto semeava, uma parte da semente caiu à beira do caminho. E vieram as aves e a comeram. Uma outra parte caiu em solo rochoso, onde havia pouca terra. E logo nasceu por causa da pouca terra. Levantando-se o sol, a queimou, e porque não tinha raiz, secou. Outra caiu sobre espinhos, e os espinhos cresceram e a sufocaram. Outra caiu em boa terra, e deu fruto: a cem, sessenta e trinta por um. Ouça quem tem ouvidos. Escutai vós, pois, o que diz a comparação do semeador: A todos aqueles que escutam a palavra do Reino (da Espiritualidade Superior) e não a entendem, vem o perverso (Espírito encarnado ou desencarnado de condição inferior) e arranca o que lhe foi semeado no coração; este é o que foi semeado na beira do caminho. O que foi semeado em solo rochoso, é o que ouve a palavra, logo a recebendo com alegria. Porém, não possui raiz em si mesmo, antes é de pequena duração. Sobrevindo a angústia e a perseguição, por causa da palavra, logo a abandona. O que foi semeado sobre espinhos, este é o que escuta a palavra; mas os cuidados deste mundo e a fascinação das riquezas sufocam a palavra e ela não produz fruto. Mas o que foi semeado em terra boa, este é o que escuta a palavra, entendendo-a, e produz frutos a cem, sessenta e trinta por um (Cap. 13, 1-9; 18-23).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Marcos

 

A comparação do semeador

 

Eis que o semeador saiu a semear. E, enquanto semeava, algumas caíram pelo caminho, e vieram os pássaros e a devoraram. E outra parte caiu sobre as pedras, onde não havia muita terra, e logo germinou, porque a terra não tinha muita profundidade; E havendo se levantado o Sol, a abrasou, e porque não tinha raízes, secou. E outra caiu entre os espinhos, e os espinhos cresceram e sufocaram-na, e não deram frutos. E outras caíram em terra boa, brotando e crescendo, deram frutos, e produziram: um trinta, um sessenta e um cem. E, disse Ele: Quem tiver ouvidos para ouvir, deixe-o ouvir... O semeador semeia a palavra. E os que estão sobre o caminho, onde a palavra é semeada, quando a ouvem; logo vem o Adversário e arrebata a palavra que neles havia sido semeada. E aquelas que são semeadas em lugares rochosos são os que ouvem a palavra e a recebem de imediato com alegria, mas eles não têm uma raiz em si mesmos, mas são mutáveis; então, vindo a tribulação de perseguição, por causa da palavra, logo fogem. E outras são aquelas semeadas entre espinhos; estes são os que ouviram a palavra, e as preocupações do momento, e as seduções da riqueza, e vindo os desejos pelas coisas que ficam, sufocam a palavra, e ela se torna estéril. E aquelas que caem em solo bom, são os que tendo ouvido a palavra a recebem e dão fruto: um trinta; um sessenta e um cem (Cap. 4, 1-9; 13-20).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

Lucas

 

A comparação do semeador

 

Eis que o semeador saiu a semear a sua semente. E quando semeava, uma parte da semente caiu à beira do caminho; e foi pisada, e as aves do céu a comeram. Outra caiu sobre pedra; e, nascida, secou-se porque não havia umidade. E outra caiu no meio dos espinhos; e crescendo com ela os espinhos, sufocaram-na. Mas outra caiu em boa terra; e, nascida, produziu fruto, cem por um. Dizendo ele estas coisas, clamava: quem tem ouvidos para ouvir, ouça... É pois esta a parábola: semente é a Palavra de Deus. Os que estão à beira do caminho são os que ouvem; mas logo vem o Diabo e tira-lhes do coração a palavra que não suceda que, crendo, sejam salvos. Os que estão sobre a pedra são os que, ouvindo a palavra, a recebem com alegria; mas estes não têm raiz, apenas creem por algum tempo, mas na hora da provação se desviam. A parte que caiu entre os espinhos são os que ouviram e, indo seu caminho, são sufocados pelos cuida dos, riquezas, e deleites desta vida e não dão fruto com perfeição. Mas a que caiu em boa terra são os que, ouvindo a palavra com coração reto e bom, a retêm e dão fruto com perseverança (Cap. 8, 4-8; 11-15).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



 [i]

A Semente lançada sobre o caminho

 

Eis que o semeador saiu a semear. E, enquanto semeava, uma parte da semente caiu à beira do caminho. E vieram as aves e a comeram (Mt 13, 4-5).

 

A manhã mal começara, quando Abner Ben Ascalom entrou em Kephar-Nahoum [1] com suas mulas carregadas de tecidos diversos, que comprara de um mercador fenício, no porto de Gaza. Parou na aduana para que as mercadorias fossem inspecionadas e o valor do imposto computado. Aquela era sempre uma situação delicada, que requeria uma negociação complicada. Os encarregados da cobrança de impostos eram corruptos e extremamente sagazes. Como tinham a força do império apoiando-os, eram arrogantes, e precisavam ser bajulados, senão poderiam simplesmente confiscar toda a carga e punir, inclusive com morte sumária, o infeliz que não caísse em suas boas graças. Propinas tinham de ser distribuídas na forma de dinheiro ou mercadorias, que os publicanos e legionários exigiam na maior desfaçatez.

Abner sempre procurava o publicano Levi, [2] o qual era o menos arrogante e voraz dos cobradores de impostos e, até certo ponto, mais fácil de lidar. Os seus companheiros costumavam chamá-lo de mãe, por sua conhecida generosidade. Dirigindo-se ao centurião que comandava o pelotão dos romanos que ali montava guarda, perguntou:

- Salve corajoso Marsias, que os deuses te sejam sempre propícios!

Enquanto pensava: “E como são deuses mentirosos, que o único e verdadeiro Deus te amaldiçoe e a toda a tua raça!”

- O que tu queres, cão judeu!

Respondeu o soldado com a rispidez que lhe era característica.

Fingindo ignorar a ofensa, embora por dentro estivesse fervendo de raiva, o mercador redarguiu:

- Sabes onde está o publicano Levi?

Pensando, ao mesmo tempo: “Suscita contra ele um ímpio (como ele) e à sua direita esteja um acusador” (Salmo 109, 6).

- Não trabalha mais aqui!

Ripostou o soldado, dando-lhe as costas.

“Hoje vai ser difícil”. Pensou Abner consigo mesmo, lançando mais uma maldição em pensamento ao romano: “Ninguém tenha misericórdia dele, nem haja quem se compadeça dos seus órfãos” (Salmo 109, 12). 

E, de fato, foi muito difícil aquele dia. Teve de pagar alta soma em imposto e propinas, o que o obrigaria a elevar o preço das suas mercadorias, dificultando as vendas. Quando terminou o processo de acerto fiscal, com o documento comprobatório do pagamento do imposto (onde não constavam as propinas, é claro; afinal corrupto não passa recibo...) devidamente guardado num protetor de couro tratado para ficar impermeável, e colocado num bolso interno de sua roupa, Abner procurou saber o que acontecera com Levi, o publicano.

- Enlouqueceu! 

Disse um dos publicanos da aduana, acrescentando:

- Largou tudo e se tornou seguidor de um bruxo nazareno que anda por aí.

- Não posso acreditar! 

Exclamou o mercador. Continuando

- O Levi! Mas ele sempre me pareceu sensato e ponderado.

Ao que o publicano retrucou, com empáfia:

- Ele se esqueceu que: “O caminho dos perversos é como a escuridão, nem sabem eles em que tropeçam”(Provérbios 4, 19).

- Sem dúvida: “A lei do Senhor é perfeita e restaura a alma” (Salmo 19, 7).

- Redarguiu Abner, enquanto pensava sobre o seu interlocutor: “Traidor do povo de Deus, filho de Belial!”, e prosseguiu, mentalmente, amaldiçoando o judeu cobrador de impostos: “De tudo o que tem, lance mão o usurário; do fruto do seu trabalho, esbulhem-no os estranhos” (Salmo 109, 11).

Saindo dali o comerciante judeu foi alojar suas alimárias e servos numa estalagem na periferia da cidade. Depois de acomodar a caravana, fez o que sempre fazia quando chegava à cidade: uma visita aos amigos.

O primeiro a ser visitado foi Nahum Barjope. Ele morava numa propriedade nos arredores da cidade, onde cultivava oliveiras e tamareiras: extraindo o azeite dos frutos da primeira, e secando os frutos da segunda, para vender no mercado da cidade e às caravanas que passavam perto de sua propriedade, pela via Maris que era também o caminho de Damasco. Depois dos rituais de praxe - a ablução do rosto, braços, mãos e pés - exigidos pelos costumes tradicionais, os dois puseram-se a conversar:

- Abner, caro amigo, vejo que Deus tem sido generoso contigo, pois os anos não pesam nos teus ombros!

- Sem dúvida o Senhor te ama muito mais, pois te proporciona ganhar muito, sem ter de enfrentar as dificuldades de uma vida nômade como a minha. Mas, caro amigo, quais são as novidades por estas bandas?

- A única novidade são as atividades de um tal Jesus, da cidade de Nazaré, que dizem estar curando doentes diversos, inclusive, veja só, ressuscitando mortos.

- Como o povo é supersticioso, meu amigo. Ressuscitar mortos? Que disparate.

- Tens toda razão. Tive oportunidade de vê-lo, outro dia, na Sinagoga.

- E então, amigo?

- Tem até uma boa aparência, o sujeito. Fala bem, com gestos comedidos e segurança. Mas suas doutrinas são, para dizer o mínimo, uma série de disparates. 

- Como assim?

- Prega um Reino dos Céus, que está chegando e para o qual temos de nos preparar.

- Espera! Esse homem está pregando uma sedição contra Roma? Isto é muito perigoso!

- É o que está preocupando muitos dos meus amigos. Eliude Barjosias tem feito uma campanha de alerta, inclusive para que as autoridades romanas vejam que as pessoas responsáveis da cidade não concordam com isso. O próprio Eliude já o enfrentou, mas nada pôde fazer por causa da populaça que o protegeu. [3]

- E o que mais esse tal de Jesus prega?

- Amor ao próximo! Inclusive aos inimigos. Vê só que loucura!

- Imagine! Os ensinamentos do Senhor divergem disso. O Todo Poderoso não tem complacência com aqueles que são seus inimigos. Com está escrito no Livro da Segunda Lei [4]

Vede agora que Eu, Eu o Sou, e mais nenhum deus comigo; eu mato e eu faço viver; eu firo e eu saro; e ninguém há que escape da minha mão. Porque levantarei a mão aos céus e direi: Eu vivo para sempre! Se eu afiar a minha espada reluzente, e a minha mão exercitar o juízo, tomarei vingança contra meus adversários e retribuirei aos meus aborrecedores. Embriagarei as minhas setas de sangue (a minha espada comerá carne), do sangue dos mortos e dos prisioneiros, das cabeças cabeludas dos inimigos” (32, 39-42). 

- Teu conhecimento das escrituras é um exemplo para os Filhos de Abraão. E não podemos esquecer que ainda hoje sofremos por causa da desobediência de nossos pais, pois não cumpriram a determinação divina de expulsar todos os povos que habitavam a Terra Prometida, como está escrito no Livro dos Números: 

Quando houverdes passado o Jordão para a terra de Canaã, desapossareis de diante de vós todos os moradores da terra, destruireis todas as pedras com figura e também todas as suas imagens fundidas e deitareis abaixo todos os seus ídolos; tomareis a terra em possessão e nela habitareis... Porém, se não desapossardes de diante de vós os moradores da terra, então, os que deixardes ficar ser-vos-ão como espinhos nos vossos olhos e como aguilhões nas vossas ilhargas e vos perturbarão na terra em que habitardes. E será que farei a vós outros como pensei fazer-lhes a eles (33, 51-56).

Nahum, escandiu a última silaba da citação.

- Bem lembrado, meu amigo. É por não terem nossos avós exterminado, como mandou o Senhor, todos os filhos de Belial que nesta Terra moravam, e por outras agressões à Lei, é que estamos sofrendo o castigo de tantas humilhações. E esse Nazareno vem falar de amor aos inimigos, era só o que faltava! E as curas desse homem são reais? Viste alguma?

- Vi, sim. O clima estava tenso na Sinagoga, quando Harim Ben Betsaida pôs uma questão ao Nazareno: É permitido se curar aos sábados? E ele respondeu, passando os olhos pela assembleia: 

“Qual de vós é o homem que, possuindo uma ovelha apenas, se ela, num sábado, cair num buraco, não lançara mão dela e a retirará? Quanto mais vale um homem do que uma ovelha! Logo, é lícito fazer o bem nos sábados. E, eis que ali estava um homem com uma das mãos ressequida. Então, o Nazareno disse ao homem: Estende tua mão. E ele a estendeu, e ela foi reconstituída, boa como a outra” (Mt 12, 9-13). 

No mesmo momento, o dirigente dos trabalhos do dia, com muita presença de espírito, encerrou a reunião. Nós, os fariseus, saindo, fomos solicitados por Eliude Barjosias para irmos a sua casa, discutir o assunto Depois de muita discussão, chegamos à conclusão que era necessário tomar uma atitude, pois aquele homem estava reunindo discípulos e influenciando pessoas desavisadas. E isto põe em risco nossas vidas e bens, nesses tempos tão difíceis.[5]

- É verdade, amigo, não podemos dar aos romanos motivos para nos oprimirem ainda mais. Todavia, houve mesmo uma cura extraordinária?

- Há muita discussão sobre isto. Uns afirmam que tudo não passou de uma farsa, engendrada pelo Nazareno, para impressionar as pessoas ali reunidas. Outros dizem que o homem era mesmo aleijado, e ficou bom. Mesmo entre estes existe dissensão: uns afirmam que foi uma cura divina, e que o Nazareno é um profeta; outros que ele é um mago, discípulos de Belzebu.

- E tu, amigo, que achas?

- Nada! Ele com suas prédicas e curas não me diz nada. É uma perda de tempo estar a se preocupar com essas coisas. Já temos a Aliança, para nos guiar na vida. E eu tenho muito o que fazer cuidando dos meus negócios. Afinal, aí estão os romanos e seus sequazes, os cobradores de impostos – que o Senhor amaldiçoe a eles e todos os seus descendentes – a roubarem os frutos do nosso trabalho.

- Tens toda razão, amigo Nahum. Trabalhamos, praticamente, para sustentar esses parasitas miseráveis.

E, durante algum tempo conversaram sobre seus negócios, sempre a lançarem maldições sobre seus dominadores.


 

A semente que caiu sobre o solo rochoso

 

Uma outra parte, caiu em solo rochoso, onde havia pouca terra. E logo nasceu, por causa da pouca terra. levantando-se o sol, a queimou, e porque não tinha raiz, secou (Mt 13, 5-6).

 

Ao passar pela Praça do Peixe, Abner viu Eglon Barjair, que fazia compras. Aproximando-se dele, saudou-o:

- Salve, nobre descendente de Dã!

O judeu voltou-se, alegre, ao escutar a voz do amigo e abraçou-o efusivamente.

- Louvado seja o Senhor! Meu amigo Abner, rebento abençoado da Tribo de Benjamin! Deixe-me pagar minhas compras, e conversaremos.

Depois de acertar com o vendedor, Eglon e Abner dirigiram-se para um canto da praça onde, debaixo de um velho sicômoro, haviam dois bancos toscos e, acomodados, puseram-se a conversar:

- Quando chegaste, amigo?

- Hoje pela manhã, e parto antes do sol nascer, pois tenho de chegar o mais cedo possível a Cesaréia de Filipe.

- Que pena, pois estimaria muito poder escutar tuas histórias de viagens, sempre tão interessantes, pitorescas e, às vezes, muito engraçadas.

- É verdade, viajar é uma oportunidade de conhecer pessoas e costumes diferentes, algumas vezes chocantes, outras vezes divertidas. Mas aqui também tem acontecido novidades, conforme estive sabendo!

- É verdade! Deves estar falando sobre Jesus, filho de José de Nazaré. Tive oportunidade de conhecê-lo. Inclusive, durante um mês acompanhei suas pregações em casa de Simão de Betsaida. Ele é um profeta, não tenho dúvida e, como acontece aos profetas, suas idéias e ações chocam a maioria das pessoas. 

- E quanto as curas, amigo!

- Sem dúvida ele é possuidor de uma grande força, e o Espírito de Deus o apoia. Um dia, estava eu, e um grande número de pessoas, em casa de Simão e André, que é seu irmão, quando aconteceu algo inesperado: ouvimos batidas forte no teto, de onde passaram a cair alguns pedaços sobre nós, causando um rebuliço, pois todos queriam se proteger, mas como o pequeno recinto estava cheio, foi um empurra, empurra e um momento em que cheguei a imaginar que aconteceria uma tragédia. Mas, o Nazareno, erguendo a voz, conteve o tumulto.

Olhando pra cima, vi que um pequeno grupo de pessoas abria um buraco no teto. André principiou a reclamar, afinal estavam danificando sua propriedade, mas Jesus o fez calar. Quando a abertura atingiu um certo tamanho, fizeram descer por ela um homem aleijado, deitado numa maca. Quando a maca chegou ao chão, vi que ele era paralítico das duas pernas. 

Então, Jesus, aproximando-se da maca disse ao paralítico: “Filho, teus erros são perdoados”. Alguns escribas que ali estavam parece que não gostaram do que ouviam, e devem ter reprochado o Rabi em pensamento, pois Jesus, voltando-se para eles, disse: 

“Porque pensais estas coisas convosco mesmos? O que é mais fácil? Dizer ao paralítico: Teus erros são perdoados? Ou dizer: Levanta-te, toma teu catre e anda? Porém, para que saibais que o filho do homem tem, sobre a Terra, poder para perdoar erros; disse ao paralítico: A ti eu digo: ergue-te, toma teu leito e vai para casa” (Mt 9, 1-8).

E uma coisa impressionante aconteceu: Com a ajuda do próprio Jesus, que lhe deu a mão para ele se apoiar, o homem se ergueu, carregou a maca e, diante de todos, saiu caminhando! Foi uma confusão: todos, menos os escribas e alguns fariseus presentes, se admiraram e deram graças a Deus, dizendo: “Isto nunca foi visto antes”.

- Mas, amigo, qual foi o truque, tu percebeste? O homem deveria estar fingindo, sendo um cúmplice ou alguém contratado para fingir-se de aleijado.

- Garanto meu amigo, não houve truque algum. A maca desceu no lugar onde eu estava, tanto que, juntamente com outras pessoas que estavam junto a mim, tive que me afastar para dar lugar a ela. Vi as pernas do homem. Pareciam dois galhos mirrados e secos. Quando Jesus lhe deu a mão, e ele se levantou, as pernas estavam absolutamente normais. Para mim foi um choque. Por isto afirmo, não houve qualquer truque.

- Então, Eglon, és agora um discípulo do Nazareno?

- De forma alguma! Apesar de reconhecer que ele é um poderoso profeta, não gosto de alguns dos seus seguidores. Os filhos de Zebedeu, por exemplo. Considero-os muito arrogantes. O próprio Simão, com quem antes tinha um bom relacionamento, pois comprava sempre peixe em sua mão, está muito metido, porque o Nazareno é seu amigo, e mora em sua casa. E, finalmente, o Rabi prega a chegada do Reino de Deus à Terra, e isto me parece muito perigoso. Para os romanos isto pode parecer uma subversão, e nós sabemos o quanto eles podem ser cruéis na repressão... Por isso, mesmo admirando ele, me afastei.

- Caro Eglon, a conversa está muito boa, todavia tenho coisas a fazer. Venha de lá um abraço, e que o Senhor continue a te abençoar a vida de seguidor fiel da Lei.

- Obrigado amigo! Desejo também que o Senhor ampare tua vida e dos seus entes queridos, protegendo-os a todos, bem como te livrando dos teus inimigos.

Despediram-se, e cada um tomou seu caminho. Abner, pensativo, tornou ao albergue, onde se pôs a verificar se estava tudo em ordem, para a viagem pela madrugada.


 

A semente sufocada por espinhos

 

Outra caiu sobre espinhos, e os espinhos cresceram e a sufocaram (Mt 13, 7).

 

A alvorada aparecia no horizonte como um fiapo luminoso, quando Abner e sua caravana puseram-se a caminho de Cesaréia de Filipe. Na saída da cidade viu um homem que, vindo por uma trilha que desembocava no Caminho de Damasco, saiu justo no local onde estavam ele e sua caravana.

- Jeremias! Que ótima surpresa te encontrar!

- Abner, ilustre descendente do filho querido de Raquel, que o Senhor cumule de bênçãos tua vida!

- Para onde vais, caro amigo?

- A Habas, um pequeno povoado de Cesaréia de Filipe, para ver um parente que está muito doente.

- Sinto muito, amigo. Que, pelo Senhor, o encontres já recuperado, quando chegares.

- Apraza ao Senhor que isto aconteça!

- Mas, então, vamos junto, pois me apraz estar em tua companhia, sempre alegre e divertida.

- Para mim é sempre um prazer estar contigo, Abner.

- Meu amigo, tiveste notícia de um tal Jesus, filho de José de Nazaré?

- Mas é claro! Participei do seu grupo durante uns seis meses. Inclusive o acompanhei em algumas de suas viagens em torno do lago. É um profeta e, para mim, foi a respeito dele que Deus falou, quando prometeu a Moisés: “Suscitar-lhes-ei um profeta do meio de seus irmãos, semelhante a ti, em cuja boca porei as minhas palavras, e ele lhes falará tudo o que eu ordenar” (Dt 18, 18).

- Meu amigo, teu entusiasmo não será exagerado? Muitos defendem que o profeta e o Ungido[6] são a mesma pessoa!

- Ah! Meu caro Abner, as curas realizadas por ele, e que eu mesmo presenciei, me levam a quase aceitar isto, não fosse um senão...

- Qual?

- Jesus não é um guerreiro. Ao contrário, prega o amor a todas as pessoas, inclusive aos inimigos. O Ungido, nos ensina a Aliança, deverá ter a capacidade guerreira de Moisés, Josué, Davi e os Macabeus, para nos libertar dos nossos opressores e estender o império Israelita sobre todas as nações da Terra, obrigando a que se convertam ao Senhor e destruindo os que não quiserem. Jesus é uma pessoa boa, aponto de perdoar até os romanos, imagine só!

- Realmente, isso é um absurdo, romano tem de ser é morto! Mas soube que esse Nazareno prega a chegada do Reino de Deus na Terra. Não é um indício de que ele pretende promover uma rebelião contra os romanos, seguida de uma política expansionista?

- Meu caro Abner, você precisa conhecer Jesus. Quem prega que não se deve resistir ao mau; que se alguém nos obrigar a andar com ele mil passos deveremos espontaneamente caminhar mais mil, e, finalmente: que se alguém nos bater numa face, deveremos virar a outra para apanhar; não pode ser, portanto, um guerreiro ou um subversivo...

- Então esse Jesus é um grande covarde!!!

- De forma alguma, amigo Abner. Eu o vi, em várias ocasiões, enfrentar os enviados do Sinédrio e, em suas faces, chamá-los de hipócrita, raça de víborassepulcros caiados, e criticar-lhes a cupidez de forma direta e taxativa. Eu os vi espumar de raiva, por não poderem nada fazer, por causa da multidão que sempre o segue e que, naturalmente, o defenderia a ferro e fogo.

- Realmente, esse homem é um enigma. Preciso conhecê-lo, para tirar minhas próprias conclusões. Você poderia me apresentar ao Nazareno?

- Infelizmente não vai dar...

- Por quê?

- Porque há algum tempo tive de me afastar. Minha família e meus negócios começaram a me solicitar. Parentes e amigos me reclamavam a presença. Enfim, os deveres naturais do cotidiano, que não podem ser esquecidos. Afinal, temos responsabilidade com os nossos. Quem sabe, quando eu não mais tiver de trabalhar, os filhos estejam criados e com suas famílias constituídas, eu possa voltar à companhia de Jesus, pois me faz muita falta ouví-lo e estar com ele... Todavia, vou fazer um bilhete lhe apresentando a André, o irmão de Simão, em cuja casa Jesus fica hospedado quando vai a Kephar-Nahum.

- Obrigado, amigo. Isto me servirá.

E os dois prosseguiram caminho, até se separarem, demandando a seus objetivos específicos.


 

A semente caída em terreno fértil.

 

Outra caiu em boa terra, e deu fruto: a cem, sessenta e trinta por um. Ouça, quem tem ouvidos (Mt 13, 8-9).

 

Chegando a Cesaréia de Filipe, Abner começou os contatos comerciais e, para espanto seu, vendeu, e muito bem, todas as mercadorias que levara. Na verdade, vendeu tudo o que levara, inclusive os animais, arreios e materiais de transporte, só não vendeu suas roupas e objetos de uso pessoal. 

Depois de pagar os empregados, e liberá-los para retornarem à suas casas, depositou os ganhos com financistas judeus ali residentes, os quais possuíam representantes nas principais cidades do império. Os Juros negociados foram excelentes, o que lhe permitiria um período de merecidas férias, que há muito tempo não usufruía. Voltava para casa com as notas de crédito que lhe permitiriam retirar as quantias que precisasse para sua manutenção, bom como para fazer negócios, caso se apresentasse alguma oportunidade. Sentia-se muito bem, cheio de energia e vigor, tomado por uma alegria inexplicável. A vida parecia estar ganhando um novo e feliz significado.

Retornou a Cafarnaum, pois tinha agora o tempo necessário para conhece o tal Nazareno, de quem seus amigos falaram, e que lhe despertara grande curiosidade. Chegando à cidade, um seu conhecido lhe propôs a compra de sua casa, pois estava de mudança para a Bitínia, a fim de trabalhar com parentes num lucrativo negócio de tecelagem de cordas de pêlo de camelo, para as tendas das caravanas. O terreno onde ficava a casa era grande, e lhe permitiria abrigar os animais e empregados de suas caravanas, quando ali chegasse, e descansar, antes de prosseguir em direção à Síria, sua meta costumeira. Além disso, nos intervá-los de suas viagens, poderia alugá-la com tal finalidade, para com o ganho pagar sua manutenção; pensando assim, comprou-a.

Depois de devidamente instalado, resolveu procurar André, o pescador, com o bilhete de apresentação, para ter acesso a Jesus de Nazaré.

Chegando à casa de André de Betsaida, soube que o Jesus e seu grupo haviam partido para uma incursão em torno do Lago da Galileia, e deveria voltar dentro de um mês ou dois.

Abner resolveu passar o tempo fazendo o que sabia: negociar. Associou-se a Eglon e, em pouco tempo, estava vendendo tâmaras dessecadas e peixes secos e salgados.

Com os contatos comerciais, passou a ficar atualizado com os comentários que corriam na cidade sobre todos os assuntos sociais, seus dramas e comédias cotidianos. Naturalmente que a maioria girava sobre Jesus de Nazaré, e como acontece normalmente, havia-os de todo tipo. Por exemplo, um entusiasta sobre Jesus lhe contou que ele havia atravessado o lago, andando sobre a água, uma sete vezes, à vista de todos. Já outro que lhe fazia oposição narrou que tinham visto Simão de Betsaida, em cuja casa se hospedava, pagando um homem que se fizera passar por aleijado de nascença, e que Jesus fingira curar em frente à multidão. E assim por diante.

Abner escutava tudo com natural ceticismo. Mas, quando lhe contaram que a filha do Chefe da Sinagoga fora ressuscitada, resolveu procurá-lo para saber a verdade sobre o fato. Soube que Jairo e sua família haviam sido convidados por Márcio Quinto Silvano para um banquete, com a finalidade de apresentá-los a um convidado, Clódio Varro Marciano, comerciante romano que estava de passagem pelo lugar, e queria saber como se dera a ressurreição. Diziam que ele terminara por se converter, abandonara a profissão, e dedicara-se, em Roma, a ajudar os desvalidos da sorte. Márcio morava em Cafarnaum há alguns anos, e construíra a Sinagoga, por ser um simpatizante da crença judia. Afirmavam que ele já era um adepto, mas que mantinha segredo do fato por causa da sua posição de oficial romano, mas que, assim que se desligasse do exército se declararia como tal.[7]

Quando se propunha a ir à casa de Jairo, para lhe perguntar a respeito da ressurreição de sua filha, pelo Nazareno, eis que um amigo o trouxe até ele, e os apresentou:

- Abner, filho de Ascalon, eis que Deus providenciou para que tua vontade de conhecer o nosso Chefe da Sinagoga, trazendo-o até ti.

Quem assim falava era seu vizinho de comércio e amigo, Eli, o Tintureiro, acompanhado de um rabino de rosto sereno e sorriso amigo.

Depois das naturais saudações, Abner e Jairo demandaram um lugar isolado onde podiam conversar. O Arquisinagogo historiou o episódio da doença de sua filha e de como, no seu desespero ao sabê-la desenganada pelos médicos, buscara Jesus. Enquanto conversava com o ele, pedindo-lhe para ir até sua casa e curar-lhe a filha, eis que um episódio interessante acontecera: uma mulher, sua conhecida, que sofria de uma constante efusão de sangue, vivendo por isso alijada de tudo e de todos, tocou a vestimenta de Jesus, o qual, voltando-se inquiriu quem o havia tocado, pois sentira uma força saindo de si. A mulher, amedrontada, se identificou, falou do seu problema e disse sentir que fora curada, o que ele reforçou, confirmando, e mandando-a seguir seu caminho. Posteriormente, entrara em contato com ela e viu-a novamente integrada à sua família, completamente boa de sua doença. Ainda estava espantado com o que acontecera quando chegaram uns parentes seus e deram-lhe a dolorosa notícia do desenlace de sua filha. Sentira uma dor imensa, mas o Rabi, colocando a mão em seu ombro dissera:

Não temas, crê somente.[8]

Na mesma hora, lembrando-se do que acontecera com a mulher hemorroíssa, sentiu uma certeza imensa de que tudo era possível àquele homem. Quando chegaram em sua casa havia uma cena muito triste de soluços e gritos de desespero. Ao entrar, Jesus dissera que não havia razão para aquilo, pois a menina estava dormindo. Os médicos e seus auxiliares, num total desrespeito ao momento, puseram-se a zombar dele. Sem se importar, entrou no quarto e mandou saírem todos que ali estavam, menos eu e minha mulher. Tomando a mão de sua filha, mandou-a se levantar. Seu corpo estremeceu, ela abriu os olhos e, levantando-se, fora abraçada por ele e sua mulher, transidos de alegria, enquanto Jesus mandava que se-lhe desse o que comer. Em meio ao alvoroço que se formara, Jesus, e os três discípulos que o acompanhavam, saíram com a discrição possível, e se foram.

Abner ficara impressionado com a narrativa e demonstrou desejo de conhecer Jesus, ao que Jairo se ofereceu para mediar o encontro, pois sabia que Jesus chegaria daí a três dias.

No terceiro dia, Abner recebeu um recado de Jairo pedindo que estivesse na sinagoga ao cair da tarde, o que ele fez. Encontrou o Arquisinagogo ultimando algumas providências para o dia seguinte, sábado, pois estavam no Parasceve, o dia da preparação, quando tudo deveria ser preparado, pois no dia seguinte era proibido qualquer esforço que pudesse ser categorizado como um trabalho.

Terminado os afazeres, Jairo e Abner desceram em direção ao lago, parando no portão de uma casa uma insuladepois da sinagoga. Ali moravam os irmãos André e Simão, com alguns familiares. Depois de Jairo bater ao portão com uma aldraba ali pendurada para tal fim. Após o chefe da sinagoga se identificar ao servo que os atendeu, foram introduzidos ao conjunto de pequenas edificações que compunham a residência.

Na edificação que ficava ao fundo, do lado esquerdo da entrada do quadrilátero formado pelos muros que cercavam o conjunto, encontraram um grupo de homens sentados, sentados ao chão. Numa posição central, junto a uma parede na qual se recostava com o auxílio de uma almofada, um homem se destacava. “Deve ser o Nazareno”, pensou Abner consigo mesmo

Jairo saudou a todos, apresentando seu convidado, sendo os dois recebidos com deferência e simpatia.

Após se acomodarem, Jesus se dirigiu a Abner:

- Tu és um verdadeiro filho de Dã. [9] Diferentemente do “Filho do Sol” [10] tens sido um cumpridor fiel da Lei.

- Donde conheces a mim, senhor?

- Todos os que praticam o bem são conhecidos pelo coração dos Filhos de Deus. A viúva e os filhos de Edonias de Belém fazem preces permanentes ao Pai, pedindo que Ele retribua com bênçãos diversas, tua generosidade para com eles.

- Mestre, vejo que és um poderoso profeta!

Exclamou Abner tomado de surpresa, pois esse era um episódio de sua vida que ninguém conhecia, pelo fato de nunca o ter revelado a qualquer pessoa, nem mesmo à sua família, e obrigara a viúva e os familiares de Edonias a jurarem, em nome do Senhor, que nunca revelariam que os ajudara. E isto ele sempre fazia, quando ajudava alguém. Claro que não exigia tal juramento por bondade, mas porque se a notícia se espelhasse perderia a paz, pois seria importunado por inúmeros pedidos de ajuda. E isto só o fazia quando queria, e de forma a ficar oculto seu auxílio.

- Fica sabendo, Abner, que foram as preces dos inúmeros beneficiários de tua generosidade que salvaram teu filho das mãos dos mercadores de escravos da Síria.

 Como que impulsionado por uma mola invisível, Abner prostrou-se aos pés de Jesus, afirmando sua fé nele e eterna fidelidade.

- Sei que muito farás pela Boa Nova, e por tua causa muitos encontrarão o caminho para o Reino de Deus.

Desde então, Abner se tornou um ativo discípulo do Mestre. Em suas jornadas comerciais aproveitava-se de toda oportunidade para divulgar a mensagem renovadora. Ligou-se, tempos depois, à Comunidade de Antioquia da Selêucida, onde veio a se tornar um dos esteios das missões evangelizadores de Paulo. Quando desencarnou, anos depois, na veneranda idade de 96 anos, sua recepção no Mundo Espiritual foi uma festa de luz indescritível. Centenas de seus beneficiários o receberam com muito carinho, liderados por Jesus e alguns dos Apóstolos que já o haviam precedido. Através dos séculos, reencarnou em missões importantes de espiritualização de grupos humanos. Sua última encarnação ainda está em desenvolvimento sob as o dossel do Cruzeiro do Sul, onde continua a sua tarefa de ajudar os seres humanos a desenvolver suas possibilidades espirituais, sob os auspícios da Doutrina Espírita. Quem o conheceu àquela época, nunca o reconheceria nas vestes do esculápio famoso internacionalmente, cuja generosidade discreta e desconhecida dos seus diversos entrevistadores, é a conquista remanescente do antigo e fiel discípulo do Nazareno.   

 

Fontes Bibliográficas

 

Argollo, Djalma, Encontro com Jesus, Fundação Lar Harmonia: Salvador, BA, Brasil, 2005.

 



[1] “Aldeia ou villa de Nahûm”, a Cafarnaum do Novo Testamento. 

[2] Levi, ao que tudo indica é o mesmo Mateus citado na relação dos Apóstolos: “Eis os doze que (Jesus) designou: Simão, a quem deu o nome de Pedro; Tiago e João, filhos de Zebedeu, aos quais deu o nome de Boanerges, que quer dizer, filhos do trovão; André, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago, filho de Alfeu, Tadeu, Simão o zelote e Judas Iscariotes, que o traiu (Mc  , 2-4); e por causa do Evangelho que lhe é atribuído: “Jesus, partindo dali, viu um homem chamado Mateus, sentado na coletoria, e disse-lhe: Segue-me. Ele se levantou e o seguiu” (Mt 9. 9). E na relação dos nome dos Apóstolos que ele próprio anotou: “Ora os nomes dos doze apóstolos são estes: O primeiro, Simão, que também se chama Pedro, e André, seu irmão; Tiago e João, filhos de Zebedeu; Filipe e Bartolomeu; Tomé e Mateus o publicano; Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu; Simão o zelote e Judas “Quando (Jesus) ia passando, viu a Levi, filho de Alfeu, sentado na coletoria, e disse-lhe: Segue-me. Ele se levantou e o seguiu” (Mc 2, 14); “Depois disto saiu (Jesus) e viu um publicano chamado Levi, sentado na coletoria, e disse-lhe: Segue-me. Ele, deixando tudo, se levantou e o seguiu” (Lc 5, 27-28).  Iscariotes, que o traiu” (Mt 10, 1-3). Ele também está relacionado como um dos Apóstolos que estavam presentes no cenáculo do Monte Sião, quando cerca de 120 discípulos ali chegaram, após virem e ouvirem Jesus materializado, pela última vez: “Então voltaram para Jerusalém do monte chamado Olival, que está perto de Jerusalém, na distância da jornada de um sábado. Quando entraram, subiram ao cenáculo, onde assistiam Pedro, João, Tiago e André; Filipe, Tomé, Bartolomeu e Mateus; Tiago, filho de Alfeu, e Simão, o zelote e Judas, filho de Tiago”.

[3] Ver ARGOLLO, 2005, pp.45-54.

[4] Deuteronômio

[5] Ver ARGOLLO, 2005, pp.45-54.

[6] Mashiah, em hebraico, meshia, em aramaico e christós, em grego. 

[7] Sobre esses fatos ver: ARGOLLO, 2005, pp. 69-71 e 144-154.

[8] Mc, 5, 36.

[9] Tribo de Dã, uma das doze tribos hebraicas, que segundo Gênesis 30, 4, teve como fundador por Dã, filho que o Patriarca Jacó fez, a pedido de sua esposa Raquel, na serva dela, Bila.

[10] Referência ao famoso Juiz Sansão (séc. XI, a.C.), cuja força tornou-se proverbial. O seu nome, em Hebraico: שִׁמְשׁוֹן, significa "pequeno sol", ou "filho do sol"). Sansão era da Tribo de Dã e foi um do Juiz das tribos israelitas por 20 anos; dono de uma força rara, as liderou nas guerras contra os Filisteus. Havendo se apaixonado pela filisteia Dalila, ela o traiu aquando ele lhe revelou que sua força era derivada dos seus longos cabelos, os quais ela cortou, depois de o haver embebedado. Cegado pelos seus captores, morreu, foi escravizado e, sendo conduzido ao templo de Dagon, para ser publicamente executado, pediu na hora a Deus que lhe restituísse sua força. Sendo atendido, derrubou as colunas que suportavam o telhado do templo, morrendo junto com todos os que ali estavam.