Carl Gustav Jung nasceu em 26 de
julho de 1875, em Kesswil, cantão da Turgóvia, uma pequena cidade Suíça, às
margens do Lago Constança, acidente geográfico que serve de fronteira entre
esse país e a Alemanha. Seu Pai, Johannes Paul Achilles Jung, era pastor
protestante e sua mãe, cujo nome de solteira era Emilie Preiswerk é descrita
como uma mulher de gênio difícil, autoritária e, o que realmente interessa a
esse estudo, médium. Aliás, a mediunidade foi comum na sua família pelo lado
materno, Como veremos mais adiante. Seis meses após o nascimento do filho,
mudaram-se para o presbitério do castelo de Laufen, perto da cidade de
Basiléia, na região das quedas do rio Reno, na sua margem Suíça. Quatro anos
mais tarde, em 1879, uma nova mudança aconteceu: agora para Klein-Hüningen,
próximo à Basiléia. Ali, em 1884, nasceu Johanna Gertrud, irmã de Jung que veio
a falecer em 1935.
Da mãe, ele guardava uma imagem
terna, cheia de admiração:
Minha mãe foi
extremamente boa para mim. Ela irradiava um grande calor animal: era
corpulenta, extremamente simpática. Sabia ouvir e gostava de conversar, num
alegre murmúrio de fonte. Tinha evidentes dons literários, bom gosto,
profundidade. Tais qualidades, entretanto, não se manifestavam exteriormente;
permaneciam ocultas numa velha senhora gorda, muito hospitaleira, que cozinhava
muito bem e tinha muito senso de humor (Jung, 1997, p. 54).
O pai de Jung permanece em suas
lembranças como um homem bom, embora de personalidade fraca, sem grandes
ambições na vida, um Pastor sem fé no que pregava, o que lhe causava terríveis
conflitos íntimos. Na adolescência de Jung, pai e filho tinham muitas e acerbas
discussões. Com a morte do pai, Jung, já na universidade, assumiu o posto de
chefe de família. Ele narra que a personalidade número 2 (provável
interferência mediúnica) de sua mãe lhe disse algum tempo depois: “Ele
desapareceu na hora certa para você”; isto parecia significar: “Vocês
não se compreendiam e ele poderia ser um obstáculo para você” (Jung, 1997,
p. 92). Por aí se pode perceber o clima emocional atribulado naquela família.
Jung foi, durante a infância,
perturbado por conflitos, ansiedades e temores. Os pesadelos eram freqüentes e,
também, sofreu inúmeros acidentes, que atribuiu em suas memórias a um
desejo inconsciente de suicídio.
As crises de dupla
personalidade que o assaltavam desde a mais remota infância, batizadas como
personalidade 1 e personalidade 2, podem ter como origem a intromissão
de lembranças de vidas pretéritas, como sua autobiografia leva a suspeitar, ou
a um processo obsessivo com origem em mentes espirituais em desequilíbrio,
conforme os ensinos espíritas.
Até sua
juventude, o cotidiano de Jung caracterizou-se também por grave crise
religiosa, fruto de problemas que devia trazer no inconsciente, aguçados, ou
até mesmo estimulados, pela atitude paradoxal de seu pai ser um Pastor sem fé,
o que naturalmente o levava a viver um insolúvel dilema existencial. Suas
fantasias e sonhos denunciavam esses conflitos.
Aos onze anos, em
1886, ingressou no Liceu de Basiléia, onde realizou seus estudos preparatórios,
o que denominamos de primeiro e segundo graus. Desde muito cedo, Jung
apresentou intensa curiosidade intelectual, transformando-se num leitor assíduo
e de múltiplos interesses, o que lhe proporcionou acumular vasto cabedal de
informações, as quais se demonstraram de grande valor em seu trabalho
posterior.
Sua vida de
colegial foi marcada por atritos com colegas e professores, sendo que estes
últimos não conseguiam reconhecer-lhe a genialidade precoce, atribuindo suas
dissertações bem elaboradas a plágios ou cópias, o que muito o amargurava.
Quando teve de se
definir por uma carreira de nível superior, Jung se dividiu entre a arqueologia
e as ciências naturais. Terminou por escolher a medicina, curso que iniciou em
18 de abril de 1895. Ainda nesse ano, fazendo parte da confraria estudantil
Zofingia – à qual seu pai pertencera na época de estudante – sobressaía pelas
exposições e debates sobre as idéias de Mesmer, Swedenborg, Lombroso
(1835-1909) e Schopenhauer. Apontava as falhas da filosofia materialista e
defendia o estudo científico dos então chamados “fenômenos psíquicos”. No ano
seguinte à sua entrada na universidade, faleceu-lhe o pai.
Entre 1896 e
1899, proferiu cinco palestras na Fraternidade Zofingia, sendo a primeira sobre
os fenômenos do espiritismo, como será detalhado mais adiante. E, entre
1898 e 1900 participou de reuniões mediúnicas com familiares, tendo como médium
sua prima de 15 anos Hélène Preiswerk.
Em 1900, depois
da leitura do Manual de Psiquiatria de Kräfft-Ebing, decidiu-se pela
especialização nessa área. No mês de dezembro do mesmo ano, assumiu o lugar de
assistente no hospital de Burghölzli, em Zurique. Nesse ano cumpriu, também,
seu primeiro período de serviço militar. Em 1902 publicou sua tese de
doutorado: “Sobre a Psicologia e Patologia dos Fenômenos Chamados Ocultos”.
No Hospital
Psiquiátrico do Cantão de Zurique, entre 1902 e 1906, desenvolveu com alunos e
colegas estudos sobre associação de idéias, independentemente das
construções teóricas de Freud a esse respeito, provando cientificamente sua
validade para a descoberta dos complexos - termo que criou – da psiquê. Estes
estudos lhe valeram um convite para apresentá-los na Clark University, nos
Estados Unidos, em 1909, onde foi agraciado com o título de doutor honoris
causa. No período em que trabalhou naquele hospital, Jung desenvolveu
notáveis estudos em torno da esquizofrenia, principalmente no que diz respeito
às personalidades múltiplas, que os psicanalistas negaram por muito
tempo, e que acabaram sendo reconhecidas como uma realidade, e não criações
enganadoras de pacientes mitômanos.
Em 14 de
fevereiro de 1903 Jung casou-se com Emma Rauschenbach, com quem veio a ter
cinco filhos. Nesse mesmo ano, relendo a Interpretação dos Sonhos, de
Freud – lido por ele três anos antes sem maiores conseqüências – verificou
afinidade entre idéias desse autor e suas, passando a divulgá-lo e defendê-lo
no meio universitário onde, então, era considerado persona non grata.
Em 1906, enviou a
Freud seu livro com as experiências e conclusões em torno da associação de
idéias, iniciando-se aí uma correspondência entre os dois. Em 1907, a convite de Freud,
foi a casa deste, nascendo aí uma amizade e colaboração que duraram até o
rompimento definitivo em 1913, com o aprofundamento de divergências teóricas
inconciliáveis.
Carl Gustav Jung
desenvolveu o conceito de inconsciente, desdobrando-o em inconsciente
pessoal e inconsciente coletivo, a partir de suas experiências e
observações. Descobriu e estudou os arquétipos do inconsciente coletivo,
material que verificou ser comum aos seres humanos, e que se manifestam através
de recursos simbólicos nos mitos e nas figuras míticas de todos os povos. Suas
contribuições à compreensão do psiquismo ainda estão sendo desdobradas por
psicólogos atuais, graças a proficuidade dos conceitos que elaborou ao longo de
sua vida de estudioso pertinaz da alma humana. Um fato importante foi o ter quebrado
a rigidez e frieza da relação médico-paciente comum na psicanálise,
substituindo-a por uma inter-relação dinâmica e compartilhada, pois ambos se
envolvem num processo que não é apenas de “cura” de um – o paciente – mas de
desenvolvimento de valores profundos e fundamentais de ambos.
Dentre seus
estudos estão aqueles em torno dos fenômenos parapsicológicos, ou
mediúnicos, para os quais buscou elaborar uma teoria, a da sincronicidade,
em parceria com o cientista e Prêmio Nobel de física Wolfgang Pauli
(1900-1958), utilizando-se do princípio de indeterminação ou incerteza [1] de
Werner Heisenberg (1901-1976).
Depois de toda uma vida dedicada à descoberta de meios e
modos de trazer mais alegria e plenitude ao ser humano, Carl Gustav Jung
faleceu no dia 6 de junho de 1961, em Küsnacht, onde foi cremado e suas cinzas
depositadas no túmulo da família.
[1] Princípio de mecânica quântica, enunciado em 1929: é
impossível discernir simultaneamente e com alta precisão a posição e o momento
de uma partícula subatômica.