segunda-feira, 29 de julho de 2019

Problemas de Convivência

a Conviver é o maior problema que todos os indivíduos enfrentam. E é a necessidade fundamental de todos os seres humanos. Existe, pois, entre as duas afirmações que fiz uma contradiction in adjeto, pois se é obrigado a algo que, ao mesmo tempo, é um problema. E é um problema porque as pessoas, individualmente, são detentoras de diversos problemas que lhe são inerentes, os quais as colocam em constantes condições de antagonismo, mesmo que conscientemente não o queiram.
Um dos fatores primordiais de conflito entre pessoas que convivem é o egocentrismo. Isto quer dizer, os conviventes normalmente agem de acordo com suas necessidades e interesses particulares, sem se preocuparem com os interesses dos que convivem consigo.
Por exemplo, se moram numa casa com um banheiro, o usam com se fossem o único morador, sem nenhum respeito pela necessidade dos outros moradores do local, o usarem. Esta é uma forma muito comum de procedimento em famílias e locais de convivência coletiva. Outro fator de dificuldade entre pessoas que vivem juntas é a compulsão da crítica, do desfazer de ideias e modos de ser dos outros.
Algumas pessoas nunca têm uma palavra de elogio para aqueles que vivem ao seu lado. Ao contrário, somente se referem ao outro buscando pontos negativos para a eles se referirem. São verdadeiros catadores de lixo comportamentais. Como urubus à cata de carne em putrefação, lançam-se famélicos sobre defeitos ou modos de ser com os quais não concorda. Ninguém presta para tais indivíduos, pois não querem ver virtudes, somente o que pode ser negativo. E, mesmo que seja uma coisa mínima, as aumentam com uma série de argumentos. E o pior, repetem sem cessar suas críticas, batendo na mesma tecla de maneira enervante.
A verdade é que essas pessoas são as que apresentam mais defeitos de comportamentos. Por isso mesmo vivem a apontar os dos outros, a fim de encobrir os seus. Vê-se muito dessa maneira de ser entre marido e mulher. Maridos existem que criticam suas esposas por tudo, sem uma palavra de elogio. Eles vivem a rebaixá-las constantemente, para se sentirem superiores.
Mas, o mesmo acontece com muitas esposas, as quais criticam, de maneira ácida, a forma dos maridos se vestirem, ressaltam que a camisa está torta ou mal posta, que seus cabelos não muito bem penteados etc. E assim sucessivamente. E sempre com tom de voz de desprezo, desdenhoso e agressivo.
Em ambos os casos, pode-se fazer um levantamento do lar onde essas pessoas foram criadas. Entre seus pais se pode encontrar o mesmo tipo de comportamento. Nunca foram preparados para conviver, pois a convivência de seus progenitores lhes foi o exemplo negativo, que expressam em sua forma de viver. (DJALMA ARGOLLO. Viver conscientemente: realizando a metanóia. Posição 247, no e-book do Kindle, onde o livro pode ser encontrado).

segunda-feira, 1 de julho de 2019

Irai-vos, mas não pequeis...


Um sentimento poderoso é, sem qualquer dúvida, a raiva. Como toda emoção ela nos toma, e se impõe de tal maneira, que temos de despender muita energia para conte-la. Mas, não se deve, a não ser em circunstâncias em que poderíamos nos comprometer de maneira inadequada, cerceá-la a qualquer custo. Todavia é possível deixá-la fluir por outros canais, não apenas mais apropriados, mas até salutares, como correr, fazer Crossfit, esmurrar um saco de areia etc.
A raiva está ligada ao instinto de conservação, ao atacar ou fugir etc. Logo é das emoções mais primitivas que existem. E não tem essa de querer “dominar a raiva”, ela vai sempre explodir, seja no objeto que lhe serviu de gatilho, seja num bode expiatório qualquer, animado ou inanimado. Jesus, no Templo, ameaçando chicotear os vendedores e cambistas, virando suas mesas, espalhando dinheiro e mercadoria pelos chão, causando prejuízos imensos aos negociantes, enquanto aos berros exclamava: “Está escrito, minha casa será chamada casa de oração, mas vocês a transformaram num covil de ladrões“ sem  deixar ninguém passar por ali, estava com muita raiva.   Quando disse aos seus discípulos: “oh, geração incrédula e perversa, até quando estarei convosco, até quando vos suportarei”,   estava claramente com raiva. Quando amaldiçoou a figueira, porque ela não tinha frutos, por não ser tempo de sua frutescência,   e ele sabia disso pois fora criado no campo, num país agrícola, e a figueira secou, estava com raiva. Ou seja, a raiva é uma emoção física, da qual,  nem os espíritos mais elevados, quando encarnados, escapam.
Ter raiva não é crime, é algo fisiologicamente natural, todavia, devemos meditar no ensinamento de um homem acostumado a ser tomado por raiva, muito facilmente: Paulo de Tarso: “Irai-vos, mas não pequeis! Não se ponha o sol sobre a vossa ira!  
Aí reside o nó da questão: como ter raiva, ou ira, e não “pecar”? Enchendo a boca com água? É uma possibilidade. Sair correndo para a academia? Outra. Esmurrar um saco de areia? Ou bater numa almofada com uma raquete ou pedaço de pau? Tem sua serventia. Seja como for, o importante será desviar o curso da raiva, fazendo-a fluir, ou refluir, numa direção onde termine por esgotar a energia que a está dinamizando. Ou então, abaixar a cabeça e os ombros, num gesto clássico de desânimo, por dois minutos, apenas, pois assim o cortisol produzido vai contrabalançar a testosterona, que alimenta a raiva, servindo de antídoto e, portanto, evitando que cometamos atos dos quais venhamos depois a nos arrepender e culpar, o que seria muito pior!

Djalma Argollo 

Salvador, dois de Julho de 2019. 

Dia em que se comemora a Independência da Bahia. Pois nele as tropas baianas, comandadas por Pedro Labatut, venceram o Exército Português comandado por Luís Inácio Madeira de Mello, em Cabrito e Pirajá. Quando, finalmente as tropas baianas comandadas pelo general João de Souza Meira Girão, entrou e tomou a Cidade do Salvador, vindas de Pirajá pelo caminho que passou a se chamar Estrada da liberdade, enquanto o general Madeira fugia,  derrotado, por mar

terça-feira, 25 de junho de 2019

Designação

Designação


[299] Enfim, o que impulsiona a alguém a escolher seu próprio caminho, e a elevar-se como uma camada de nevoeiro acima da identidade com a massa humana? Não pode ser a necessidade, pois esta atinge a muitos e todos estes se salvam pelas convenções. A decisão moral também não pode ser, pois geralmente todos se decidem pela convenção. O que, pois, dá o último impulso a favor de algo fora do comum?
 [300] É o que se denomina designação; é um fator irracional, traçado pelo destino, que impele a emancipar-se da massa gregária e de seus caminhos desgastados pelo uso. Personalidade verdadeira sempre supõe designação e nela acredita, nela deposita pístis (confiança) como em Deus, mesmo que na opinião do homem comum seja apenas um sentimento pessoal de designação. Esta designação age como se fosse uma lei de Deus, da qual não é possível esquivar-se. O fato de muitíssimos perecerem, ao seguir seu caminho próprio, não significa nada para aquele que tem designação. Ele deve obedecer à sua própria lei, como se um demônio lhe insuflasse caminhos novos e estranhos. Quem tem designação (Bestimmung) escuta a voz (Stimme) do seu íntimo, está designado (bestimmt). Por isso a lenda atribui a essa pessoa um demônio pessoal, que a aconselha e cujos encargos deve executar. Exemplo muito conhecido é o Fausto (de Goethe), e um caso histórico é o daimonion de Sócrates. Curandeiros de povos primitivos têm espíritos de serpente, como também Esculápio, o patrono protetor dos médicos, é representado pela serpente de Epidauro. Além disso, tinha como demônio pessoal o cabiro chamado Telésforo, que segundo parece lhe lia ou inspirava as receitas.
[301] O sentido primitivo da palavra alemã Bestimmung é o de que uma voz (Stimme) se dirige à pessoa[*]. Exemplos lindíssimos a respeito disso se encontram no Antigo Testamento. Isto não é apenas um modo de falar dos antigos; também o mostram as confissões de personalidades históricas, como Goethe e Napoleão, para citar apenas dois nomes bastante conhecidos de pessoas que não fizeram segredo de sua designação.
[302] A designação ou o respectivo sentimento não constitui apenas uma prerrogativa das grandes personalidades; também aparece nas pequenas personalidades e mesmo na menor delas, só que acompanhada do decréscimo da intensidade, tornando-se cada vez mais nebulosa e mais inconsciente. Parece que a voz do demônio interior se torna cada vez mais distante, mais rara e mais confusa. Quanto menor for a personalidade, tanto mais imprecisa e inconsciente se torna a voz, até confundir-se com a sociedade, sem poder distinguir-se dela, privando-se da própria totalidade para diluir-se na totalidade do grupo. A voz interior é substituída pela voz do grupo social e de suas convenções; em lugar da designação aparecem as necessidades da coletividade. A não poucos sucede que, mesmo estando nesse estado social inconsciente, são chamados por uma voz individual e assim começam a distinguir-se dos outros e a deparar com problemas a respeito dos quais os outros nada sabem. Em geral é impossível para esse indivíduo explicar às outras pessoas o que lhe aconteceu, pois existe como que um muro de fortíssimos preconceitos a impedir a compreensão. “A gente é como todo o mundo”; “tal coisa nem existe” ou, se existir, será naturalmente algo “doentio” e, além disso, sem finalidade alguma; é “uma pretensão descabida pensar que uma coisa dessas tenha importância”, “isso não é nada mais do que psicologia”. Justamente a última acusação é hoje em dia a mais popular. Provém da curiosa subestima de tudo o que faz parte da alma, e que é tido aparentemente como algo de arbitrário e pessoal; por esse motivo é considerado uma futilidade, apesar de contrastar paradoxalmente com todo o entusiasmo reinante pela psicologia. O inconsciente “não passa de fantasia”! Apenas “pensou-se” tal coisa etc. A gente quase se sente um mágico que por suas artes manipula o que é psíquico e lhe dá a forma caprichosa que deseja. Nega-se o que é incômodo, sublima-se o que é indesejável, afasta-se com explicações o que é angustiante, corrige-se o que se julga um erro; e tem-se por fim a impressão de ter colocado tudo na mais perfeita ordem. Mas nisso tudo foi esquecido o mais importante: que o psíquico não se identifica nem de longe com a consciência e com suas artes mágicas. A maior parte do psíquico consta de fatos inconscientes que, sendo duros e pesados como o granito, são imóveis e inacessíveis, mas podem desabar sobre nós a qualquer momento, conforme leis ainda desconhecidas. As catástrofes gigantescas que nos ameaçam não ocorrem nos elementos de natureza física ou biológica, mas são acontecimentos psíquicos. Ameaçam-nos de modo aterrador guerras e revoluções, que nada mais são do que epidemias psíquicas. A qualquer momento alguns milhões de homens podem ser acometidos de uma ilusão, e poderemos ter outra guerra mundial ou uma revolução devastadora. Em lugar de estar exposto a animais ferozes, à queda de rochedos, à inundação das águas, o homem se encontra agora ameaçado pelos poderes elementares de sua psique. O psíquico se tornou uma grande potência que supera muitas vezes todos os outros poderes da Terra. O esclarecimento (Aufklärung), que tirou da natureza e das instituições humanas tudo o que aí havia de divino, conservou aquele deus do terror que reside na alma. O temor de Deus em nenhum outro lugar é mais indicado do que aqui, a fim de proteger-nos contra o predomínio exagerado do psíquico.
[303] Mas tudo isso não passa de abstrações. Todos sabem que o intelecto de um sujeito extraordinário poderia dizer tudo isso do mesmo modo e de muitos outros ainda. É muito diferente, porém, quando este psíquico, que é objetivo e duro como granito, e pesado como chumbo, se apresenta ao indivíduo como uma experiência interior e lhe diz com voz audível: “assim será e assim deve ser”. Então ele se sente designado, do mesmo modo que os grupos sociais por ocasião de uma guerra, revolução ou outra ilusão qualquer. Não é em vão que nosso tempo clama por uma personalidade salvadora, isto é, clama por alguém que se distinga do poder inelutável da coletividade e assim se liberte a si mesmo psiquicamente, acendendo para os outros o farol da esperança, que atestará que pelo menos um único conseguiu escapar à identidade funesta com a alma do grupo. O grupo, por causa de sua inconsciência, é incapaz de tomar uma decisão livre; é por isso que no grupo o psíquico atua como uma lei natural desenfreada. Desencadeia-se uma série de acontecimentos, ligados entre si por causa e efeito, que apenas cessará quando ocorrer a catástrofe. O povo sempre suspira por um herói, por um exterminador de dragão, quando pressente o perigo do psíquico; daí provém o clamor pela personalidade.
[304] Mas o que tem a ver a personalidade individual com a necessidade de multidão dos outros? Em primeiro lugar, ela já faz parte do povo como um todo, e também se encontra à mercê do poder que move o todo, da mesma forma que todos os demais membros. A única coisa que distingue esse homem de todos os outros é sua designação. Ele foi chamado por aquilo que é o psíquico superpoderoso, aflitivo e geral, que é a necessidade sua e a do povo. Se ele obedecer à voz, sentir-se-á imediatamente diferente e isolado, porque decidiu seguir aquela lei que veio ao seu encontro e brotou de seu próprio íntimo. “Sua própria lei”, todos dirão. Só ele sabe, e só ele pode saber: Trata-se da lei e da designação. Tudo isso é tão pouco “próprio” dele como o leão que o matar, mesmo que fora de dúvida se trate daquele leão que o mata e não de outro qualquer. Apenas nesse sentido é que ele pode falar de “sua” designação e de “sua” lei.
[305] Pela decisão de colocar seu próprio caminho acima de todos os outros, já realizou grande parte de sua designação salvadora. Ele excluiu de sua via a validade de todos os outros caminhos. Ele colocou a sua lei acima de todas as convenções, afastando de si o que não apenas deixou de impedir o grande perigo, mas até mesmo o provocou. As convenções são em si mesmas mecanismos sem alma, que nada mais podem abranger do que a rotina da vida. A vida criadora fica sempre acima da convenção. Por isso deve haver uma erupção destruidora das forças criativas, quando predominar unicamente a rotina da vida na forma de convenções tradicionais. Essa erupção é catastrófica apenas como um fenômeno da massa, e jamais para o indivíduo que se submete conscientemente a essas forças superiores e coloca sua capacidade a serviço delas. O mecanismo das convenções conserva os homens inconscientes, pois então podem, à semelhança de animais selvagens, fazer mudanças há muito conhecidas sem ser preciso tomar uma decisão consciente. Essa atuação não intencionada por parte das melhores convenções é inevitável, mas nem por isso deixa de ser um perigo terrível. Tal como acontece com os animais, entre os homens que são mantidos inconscientes pela rotina também pode surgir o pânico, com todas as consequências imprevisíveis, se as novas circunstâncias não parecerem previstas pelas antigas convenções.
[306] A personalidade não deixa dominar-se pelo pânico dos que acordam, pois já superou o terror. Ela está sempre preparada para as mudanças da época; ela é líder (Führer), mesmo sem o saber e sem o querer.
[307] Certamente todos os homens são iguais uns aos outros, pois de outro modo não sucumbiriam à mesma ilusão. Também é certo que a camada psíquica mais profunda, sobre a qual se firma a consciência individual, é de natureza universal e da mesma espécie, pois de outro modo os homens não poderiam entender-se mutuamente. Sob esse aspecto, também a personalidade e suas propriedades psíquicas peculiares não representam algo de absolutamente único e singular. A singularidade se refere apenas à individualidade que a personalidade tem, como em geral a qualquer individualidade. Tornar-se personalidade não é prerrogativa exclusiva do homem genial. Pode mesmo alguém ser genial sem ter personalidade ou sem ser personalidade. Uma vez que cada indivíduo tem sua lei de vida que lhe é inata, cada um, em teoria, pode seguir esta lei acima das outras e assim tornar-se personalidade, o que significa atingir a totalidade. O ser vivente existe apenas sob a forma de uma unidade viva ou indivíduo, por isso a lei da vida se destina sempre a uma vida vivida individualmente. Somente podemos conceber o psiquismo objetivo como uma realidade universal e da mesma natureza, a qual significa a condição psíquica prévia e igual para todos os homens. Mas toda a vez que essa realidade quer manifestar-se, precisa individualizar-se, pois normalmente não existe outra escolha possível a não ser a de expressar-se por meio de um indivíduo singular. Ocorre também o caso de essa realidade apoderar-se de um grupo; mas isso, conforme o caso, apenas leva à catástrofe, pela simples razão de estar atuando apenas inconscientemente e não ter sido assimilada por nenhuma consciência capaz de harmonizá-la com as demais condições de vida já existentes.
[308] Somente pode tornar-se personalidade quem é capaz de dizer um “sim” consciente ao poder da destinação interior que se lhe apresenta; quem sucumbe diante dela fica entregue ao desenrolar cego dos acontecimentos e é aniquilado. O que cada personalidade tem de grande e de salvador reside no fato de ela, por livre decisão, sacrificar-se à sua designação e traduzir conscientemente em sua realidade individual aquilo que, se fosse vivido inconscientemente pelo grupo, unicamente poderia conduzir à ruína.
[309] Um dos exemplos mais brilhantes da vida e do sentido de uma personalidade, como a história no-lo conservou, constitui a vida de Cristo. Entre os romanos existia a presunção dos césares, e isto não era apenas uma propriedade do imperador, mas atingia a todo o cidadão–civis Romanus sum (sou cidadão romano). O cristianismo se apresentou como adversário dessa presunção, e por isso foi a única religião perseguida de fato pelos romanos, o que menciono apenas de passagem. Essa oposição se manifestava toda vez que o culto dos césares e o cristianismo colidiam entre si. Mas essa mesma oposição já tinha desempenhado um papel decisivo na alma do fundador do cristianismo, de acordo com o que conhecemos por meio das alusões dos evangelhos sobre o processo psíquico da formação da personalidade de Cristo. A história da tentação mostra-nos claramente com que poder psíquico Jesus colidiu: o demônio do poder, existente na psicologia de seus contemporâneos, que no deserto o levou a uma grave tentação. Esse demônio era o psiquismo objetivo, que prendia em sua esfera de ação todos os povos do Império Romano; por isso podia o tentador prometer a Jesus todos os reinos da Terra, como se quisesse fazer dele um César. Seguindo a voz interior, sua designação e vocação, Jesus se expôs de livre vontade ao ataque da presunção imperialista, que a todos inflava–vencedor e vencido. Com isso reconheceu a natureza da realidade psíquica objetiva que colocava o mundo inteiro em estado de sofrimento e ocasionava o desejo de salvação, expresso também pelos poetas pagãos. Esse ataque psíquico com o qual conscientemente se defrontou, ele nem o sufocou nem se deixou sufocar por ele, mas o assimilou. E deste modo surgiu do César dominador do mundo um reino espiritual, e do Império Romano o Reino de Deus, que é universal e não pertence a este mundo. Enquanto todo o povo judeu esperava um Messias, que ao mesmo tempo fosse um herói imperialista e atuante na política, cumpriu Cristo sua designação messiânica, não tanto para sua nação, mas muito mais para o mundo romano, ao chamar a atenção da humanidade para essa verdade antiga, que onde domina o poder não existe o amor, e que onde reina o amor o poder desaparece. A religião do amor era exatamente o traço psíquico oposto ao que havia de demoníaco no poderio romano.

JUNG, Carl Gustav. O Desenvolvimento da Personalidade. O. C., vol. 17. Editora Vozes. (Parágrafos inseridos no texto).

O Inconsciente

O inconsciente é a matriz fundamental de toda a vida. É ele que produz e mantém o organismo; que elabora a consciência e o ego, os quais nos tornam capazes de saber quem e o que somos, a todo instante. Por ser a origem da consciência, e de nossa própria existência, é que o inconsciente é todo poderoso, e quanto mais o ego o ignora, mais poderoso ele se torna, e mais perigoso. Dessa última afirmação é que se inicia o tema deste capítulo. A consciência surgiu da necessidade do inconsciente se tornar consciente de si mesmo.
Observe como a vida evoluiu: no início, da matéria inorgânica surgiu a matéria orgânica, e desta, os seres vivos. Existe uma pulsão intrínseca á base do universo, que o faz surgir de uma singularidade indiferenciada e, através de constantes mutações, atingir a complexidade fenomênica que hoje conhecemos, e a que ainda desconhecemos, mas de cuja existência desconfiamos.
Que impulso fundamental é esse, que obriga tudo o que existe a ciclos de surgimentos e transformações? Sem dúvida é uma força inconsciente, mas com um desígnio, um propósito. Quando acompanhamos o fluxo evolutivo, tanto do universo como um todo, quanto das partes que o compõem, percebemos um processo teleológico, que já foi chamado de vontade divina, enteléquia, acaso e necessidade, vontade, ideia etc.
De minha parte, imagino que existe um arquétipo fundamental, que muitos chamam de Deus, Alá, Brahma, Mulungu etc., que dá origem ao universo e lhe impõe o desígnio da diferenciação e do progresso rumo à autoconsciência, Isto é, à descoberta da própria existência. Em cada um de nós esse desígnio se realiza, a ponto de podermos afirmar que os seres conscientes representam variadas maneiras pelas quais a pulsão inconsciente desperta, tomando consciência de si, de múltiplas formas e de variadas perspectivas.
Saindo dessa especulação metafísica, que julguei necessária, continuemos com o nosso tema. A vida surge e se desenvolve por imposição do inconsciente, que busca a consciência de si, volto a afirmar. Por isso, nosso desenvolvimento requer que nos esforcemos para ampliar a consciência, integrando a ela os conteúdos do inconsciente. Na verdade, isto vem ocorrendo, inconscientemente, em nossa existência desde sempre. Todos nascemos inconscientes, mas gradualmente vamos nos tornando conscientes, a ponto de tomarmos atitudes que tentam se opor ao inconsciente, com algum êxito, mas com consequências, algumas vezes, desastrosas (Djalma Argollo, Viver conscientemente, Publicado na AMAZON, pp. 133-164).

Assim falava Zarathustra de Friedrich Nietzsche

“O homem é corda estendida entre o animal e o Super-homem: uma corda sobre um abismo; perigosa travessia, perigoso caminhar, perigoso olhar para trás, perigoso tremer e parar. O grande do homem é ele ser uma ponte, e não uma meta; o que se pode amar no homem é ele ser uma passagem e um acabamento. Eu só amo aqueles que sabem viver como que se extinguindo, porque são esses os que atravessam de um para outro lado. Amo os grandes desdenhosos, porque são os grandes adoradores, as setas do desejo ansiosas pela outra margem. Amo os que não procuram por detrás das estrelas uma razão para morrer e oferecer-se em sacrifício, mas se sacrificam pela terra, para que a terra pertença um dia ao Super-homem. Amo o que vive para conhecer, e que quer conhecer, para que um dia viva o Super-homem, porque assim quer o seu acabamento. Amo o que trabalha e inventa, a fim de exigir uma morada ao Super-homem e preparar para ele a terra, os animais e as plantas, porque assim quer o seu acabamento. Amo o que ama a sua virtude, porque a virtude é vontade de extinção e uma seta do desejo. Amo o que não reserva para si uma gota do seu espírito, mas que quer ser inteiramente o espírito da sua virtude, porque assim atravessa a ponte como espírito. Amo o que faz da sua virtude a sua tendência e o seu destino, pois assim, por sua virtude, quererá viver ainda e deixar de viver. Amo o que não quer ter demasiadas virtudes. Uma virtude é mais virtude do que duas, porque é mais um nó a que se aferra o destino. Amo o que prodigaliza a sua alma, o que não quer receber agradecimentos nem restitui, porque dá sempre e se não quer preservar. Amo o que se envergonha de ver cair o dado a seu favor e que pergunta ao ver tal: “Serei um jogador fraudulento?”–porque quer submergir-se. Amo o que solta palavras de ouro perante as suas obras e cumpre sempre com usura o que promete, porque quer perecer. Amo o que justifica os vindouros e redime os passados, porque quer que o combatam os presentes. Amo o que castiga o seu Deus, porque ama o seu Deus, pois a cólera do seu Deus o confundirá. Amo aquele cuja alma é profunda, mesmo na ferida, e ao que pode aniquilar um leve acidente, porque assim de bom grado passará a ponte. Amo aquele cuja alma transborda, a ponto de se esquecer de si mesmo e quanto esteja nele, porque assim todas as coisas se farão para sua ruína. Amo o que tem o espírito e o coração livres, porque assim a sua cabeça apenas serve de entranhas ao seu coração, mas o seu coração, o leva a sucumbir. Amo todos os que são como gotas pesadas que caem uma a uma da sombria nuvem suspensa sobre os homens, anunciam o relâmpago próximo e desaparecem como anunciadores. Vejam: eu sou um anúncio do raio e uma pesada gota procedente da nuvem; mas este raio chama-se o Super-homem” (ítem IV)

Eco e sua tragédia existencial

Eco e sua tragédia existencial


Não agüento mais essa tagarela da Eco — segredou um dia a deusa dos bosques a uma das suas ninfas.

De fato, não era só Artemis que não suportava mais o falatório da ninfa nenhuma das suas amigas podia mais vê-la pela frente sem fugir de sua língua incansável. Apesar de ser tão bela quanto a mais bela das ninfas, Eco tinha a mania incontrolável de falar pelos cotovelos.

— Por que não se cala de vez em quando? — diziam-lhe as amigas. — Homem algum suportará uma mulher que fale sem parar, mesmo sendo tão bela como você.

Mas Eco não se corrigia e prosseguia falando, até a exaustão. Um dia, porém, meteu-se com Hera, a esposa de Zeus, e isto foi a sua ruína.

O deus dos deuses havia dado mais uma de suas escapadas, e Hera andava por perto, farejando o seu rastro. A própria Eco já gozara dos favores de Zeus e prometera ocultar, a pedido do grande deus, os amores que ele agora mantinha com outra ninfa. A deusa dos bosques não queria saber de fofocas e por isso fazia vistas grossas ao namoro. Afinal, meter-se com o deus supremo podia trazer-lhe problemas funestos.

Certo dia, porém, Hera, tomada pela cólera, chegou quase a tempo de flagrar o esposo nos braços da tal ninfa. Eco, após alertar o casal, dissera a Zeus:

— Deixem comigo, eu a distrairei enquanto vocês escapam.

E assim fez, realmente. Tão logo Hera chegou, Eco apoderou-se dela com uma longa conversa, repleta de digressões e subterfúgios. Mas Hera, acostumada as desculpas esfarrapadas do marido, compreendeu logo a intenção da ninfa, que se achava mais esperta do que realmente era:

— Cale a boca! — disse, empurrando-a. — Pensa que me engana com sua conversa mole, sua atrevida?

Eco, assustada e com as mãos da furiosa deusa impressas nos ombros, calou-se. Mas era tarde demais.

— Porque pretendeu me fazer de boba a punirei, fazendo com que nunca mais possa dizer nada a não ser as últimas palavras que escutar — amaldiçoou Hera.

— ... as últimas palavras que escutar... —repetiu Eco, em cuja boca o feitiço já  começava a atuar.

— Ai está o que ganhou com seu atrevimento — disse Hera, vingada. — Adeus, idiota!

—... adeus, idiota... -repetiu Eco e tapou rapidamente a boca com as duas mãos.

A notícia da maldição de Hera espalhou-se ligeiro por entre as ninfas:

— Bem-feito, sua ordinária — disse um dia uma rival a Eco.

— ... sua ordinária... — respondeu Eco, que ao menos podia, às vezes, responder à altura os desaforos que escutava.

Assim vagou a ninfa por entre os bosques durante muitos anos, até que um dia, caminhando pelas montanhas, encontrou Narciso, um jovem caçador que havia se extraviado de seus colegas. Eco, ao colocar os olhos sobre a beleza do jovem, tomou-se imediatamente de amores por ele. Seguiu-o por um longo tempo imaginando qual o melhor meio de se aproximar dele, até que, ao pisar num galho solto, despertou finalmente a atenção do moço.

— O que foi isto? — perguntou o rapaz. — Há por aqui mais alguém?

— ... mais alguém... — repetiu Eco.

— Chegue mais perto — disse Narciso, sem ver ninguém.

— ... mais perto... — disse Eco e mostrou-se, finalmente, tendo antes o cuidado de ajeitar os cabelos.

Decepcionado por ver que não era nenhum de seus companheiros, Narciso simplesmente perguntou:

— Diga-me, ninfa, como faço para sair daqui?

— ... sair daqui — replicou Eco, agoniada, pois a última coisa que desejava era que ele fosse embora.

Não podendo expressar com suas próprias palavras o seu amor, sem que antes o estranho o declarasse para ela, a ninfa desesperou-se e resolveu tomar uma medida drástica. Estendendo os braços, lançou-se para ele num frenético abraço. "Talvez ele entenda os meus sentimentos", pensou.

— O que está fazendo? — exclamou Narciso, atirando-a ao solo com um empurrão. — Não quero o seu amor!

— ... quero o seu amor... — repetiu a ninfa, vendo Narciso dar-lhe as costas e escapar rapidamente por uma vereda do bosque.

Mas em matéria de amor Eco era um desastre. Consciente de seu fracasso, a pobre ninfa recolheu-se para o interior de uma caverna no bosque. Ali, após enfadar durante longos anos as paredes da gruta com seus lamentos e lágrimas, viu seu corpo, aos poucos, dissolver-se na escuridão da caverna, até passar a fazer parte dela. Da pobre ninfa só restou sua voz cava e profunda, a repetir sempre as últimas palavras que os passantes pronunciassem.

Narciso prosseguiu com suas caçadas e a tratar com rudeza as ninfas que o perseguiam. O jovem caçador era pretensioso e arrogante, e mulher alguma parecia bastar à sua vaidade. Inclusive corria uma lenda que dizia que quando Narciso nasceu, um oráculo teria anunciado que ele poderia viver muito tempo, se jamais enxergasse a si próprio. Seu pai, por via das dúvidas, quebrou todos os espelhos da casa. Temendo que o filho procurasse o próprio reflexo em alguma outra parte, adquiriu um espelho mágico, no qual Narciso via sua imagem sempre distorcida.

Mesmo assim, sua beleza era tal que o arrogante rapaz não desgrudava do bendito espelho.

— Como sou lindo... — dizia, sempre que tinha o espelho nas mãos.

Um dia, porém, durante uma caçada mais agitada, o espelho que trazia sempre em seu bolso partiu-se. Juntando os cacos pôde ver apenas, com lágrimas nos olhos, o reflexo estilhaçado da própria beleza.

— Que lindos pedaços! — ainda se admirou, numa vaidade residual e fragmentária.

Abalado e cansado da caça, Narciso meteu-se para dentro das profundezas do bosque, próximo da gruta onde Eco vivia. Ah perto havia um pequeno lago. absolutamente deserto e silencioso. Sobre suas plácidas águas nem um único cisne deslizava. As árvores, nas margens, inclinavam-se para longe do espelho cristalino de suas águas, como que tentando escapar de seu intenso reflexo.

Narciso, chegando à margem, debruçou-se para tomar alguns goles de límpida água. Ao fazê-lo, percebeu que alguém o observava de dentro da água. Fascinado com a beleza daquele semblante inigualavelmente belo, Narciso teve de admitir que era mais perfeito ainda do que o seu próprio rosto.

— Quem é você, rosto adorável, que me contempla deste jeito? — perguntou à efígie encantadoramente bela, que o mirava apaixonadamente nos olhos.

O rosto lindo, porém, não lhe respondia, nem a esta nem às outras solicitações. Por várias vezes Narciso tentou, sem sucesso, seduzir aquele rosto magnífico. Um dia debruçou-se a ponto de encostar os lábios à liquefeita boca da imagem. Porém, ao fazê-lo, viu o belo estranho turvar-se, o que o encheu de pânico.

— Não, não fuja! — exclamou, assustado, descolando rapidamente os lábios da água, o que fez a imagem retomar, aos poucos, a sua anterior nitidez.

— Por que rejeita meus beijos?

Pela primeira vez Narciso descobria o que era a dor do amor não-correspondido.

Apesar do jovem erguer cada vez mais a voz, Eco, que ouvia tudo, excepcionalmente não lhe repetia as últimas palavras. Vítima da crueldade de Narciso, gozava agora, secretamente, a sua vingança. O único ruído que escapava da caverna era um riso baixinho, que o vento produzia ao passar pelas fendas das pedras.

O jovem caçador foi perdendo a sua cor. Suas faces murchavam, seu cabelo crescia desmesuradamente — a ponto da franja cair-lhe pelos olhos — e seu nariz, perfeitamente aquilino, apresentava uma coriza continuamente a escorrer. Mas nada disso era o bastante para fazer com que ele deixasse de amar aquele rosto magnificamente belo. Assim foi definhando lentamente o pobre Narciso, às margens do lago. Sem poder consumar o seu amor, acabou se transformando numa bela flor roxa de folhas brancas, sempre debruçada sobre o leito das águas.

Sua sombra infeliz embarcou no mesmo dia na barca de Caronte, atravessando o Estiges rumo ao país das trevas. Mas nem o severo barqueiro pôde impedi-lo de, enquanto fazia a travessia, reclinar-se outra vez para mirar-se nas águas do rio infernal.

segunda-feira, 24 de junho de 2019

O eu



A circunstância de lidar com a psicologia do inconsciente fez-me deparar com fatos que exigem a elaboração de novos conceitos. Um destes conceitos é o do si‑mesmo (Selbst). Refiro-me, com isto, não a uma grandeza que venha ocupar o lugar daquela até o momento designada pelo termo eu, mas a uma grandeza mais abrangente, que inclua o eu. Entendemos por "eu" aquele fator complexo com o qual todos os conteúdos conscientes se relacionam. É este fator que constitui como que o centro do campo da consciência, e dado que este campo inclui também a personalidade empírica, o eu é o sujeito de todos os atos conscientes da pessoa. Esta relação de qualquer conteúdo psíquico com o eu funciona como critério para saber se este último é consciente, pois não há conteúdo consciente que antes não se tenha apresentado ao sujeito.

Esta definição descreve e estabelece, antes de tudo, os limites do sujeito. Teoricamente, é impossível dizer até onde vão os limites do campo da consciência, porque este pode estender‑se de modo indeterminado. Empiricamente, porém, ele alcança sempre o seu limite, todas as vezes que toca o âmbito do desconhecido. Este desconhecido é constituído por tudo quanto ignoramos, por tudo aquilo que não possui qualquer relação com o eu enquanto centro da consciência. O desconhecido se divide em dois grupos: o concernente aos fatos exteriores que podemos atingir por meio dos sentidos, e o que concerne ao mundo interior que pode ser objeto de nossa experiência imediata. O primeiro grupo representa o desconhecido do mundo ambiente, e o segundo, o desconhecido do mundo interior. Chamamos de inconsciente a este último campo.

O eu considerado como conteúdo consciente em si não é um fator simples, elementar, mas complexo; é um fator que, como tal, é impossível descrever com exatidão. Sabemos pela experiência que ele é constituído por duas bases aparentemente diversas: uma base somática e uma base psíquica. Conhecemos a base somática, partindo da totalidade das sensações de natureza endossomáticas, as quais, por sua vez, são de caráter psíquico e ligadas ao eu e, consequentemente, também conscientes. Estas sensações decorrem de estímulos endossomáticos que só em parte transpõem o limiar da consciência. Parte considerável destes estímulos se processa de modo inconsciente, isto é, subliminar. Este caráter subliminar não implica necessariamente um estado meramente fisiológico, o mesmo acontecendo com relação a um conteúdo psíquico. Eles podem, eventualmente, tomar‑se supraliminares, isto é, podem transformar‑se em sensações. Não há dúvida de que parte considerável dos estímulos endossomáticos é totalmente incapaz de se tornar consciente, e seu caráter é tão elementar, que não há razão para conferir‑lhe uma natureza psíquica, a menos que se partilhe a opinião filosófica segundo a qual os processos vitais são de fundo psíquico. Contra uma tal hipótese, que dificilmente será comprovada, deve‑se arguir, sobretudo, que ela estende o conceito de psique além de qualquer limite válido, tomando o processo vital, deste modo, num sentido que nem sempre tem o apoio dos fatos reais. Conceitos demasiado amplos revelam‑se em geral instrumentos inadequados de trabalho, por serem vagos e nebulosos. Por isso propus que o conceito de psíquico só fosse aplicado àquela esfera em que exista uma vontade comprovadamente capaz de alterar o processo reflexivo ou instintivo. Sobre este ponto, sou obrigado a remeter o leitor ao meu artigo "Der Geist der Psychologie" (O Espírito da Psicologia *), onde trato detalhadamente desta definição do psíquico.

A base somática do eu é constituída, como já apontei, por fatores conscientes e inconscientes. Outro tanto se pode dizer da base psíquica: o eu se assenta de um lado sobre o campo da consciência global e, do outro, sobre a totalidade dos conteúdos inconscientes. Estes últimos se dividem em três grupos:

(1) o dos conteúdos temporariamente subliminares, isto é, voluntariamente reproduzíveis;

(2) o dos conteúdos que não podem ser reproduzidos voluntariamente, e

(3) o dos conteúdos totalmente incapazes de se tornarem conscientes.

Pode‑se deduzir a existência do grupo número 2, dada a ocorrência de irrupções espontâneas na consciência de conteúdos subliminares.

O grupo número 3 é hipotético, isto é, uma decorrência lógica dos fatos que estão na origem do segundo grupo quer dizer, este grupo encerra conteúdos que ainda não irromperam ou jamais irromperão na consciência.

Ao afirmar acima que o eu se apoia sobre o campo global da consciência, não estou, de modo nenhum, querendo dizer que seja constituído por ele. Se isto acontecesse realmente, seria impossível distingui‑lo do campo da consciência. É apenas o ponto central, fundado e delimitado pelo fator somático acima descrito.

A despeito do caráter relativamente desconhecido e inconsciente de suas bases, o eu é um fator consciente por excelência. Constitui, inclusive, uma aquisição empírica da existência individual. Parece que resulta, em primeiro lugar, do entrechoque do fator somático com o mundo exterior, e uma vez que existe como sujeito real, desenvolve‑se em decorrência de entrechoques posteriores, tanto com o mundo exterior como com o mundo interior.

Apesar de desconhecermos os limites de suas bases, o eu nunca é mais ou menos amplo do que a consciência como tal. Como fator consciente, o eu pode ser perfeitamente descrito, pelo menos do ponto de vista teórico. Mas isto nada mais nos proporcionaria do que uma imagem da personalidade consciente, à qual faltariam todos os traços que o sujeito desconhece ou de que não tem consciência. Mas a, imagem global da personalidade deveria incluir também esses traços. É absolutamente impossível fazer uma descrição completa da personalidade, mesmo sob o ponto de vista teórico, porque uma parcela do inconsciente não pode ser captada. Esta parcela não é, de modo algum, irrelevante, como a experiência nos tem mostrado até à saciedade. Pelo contrário: há qualidades perfeitamente inconscientes que só podem ser observadas a partir do mundo exterior, ou para se chegar às quais é necessária muita fadiga, ou recorrendo até mesmo a meios artificiais.

É evidente que o fenômeno global da personalidade não coincide com o eu, isto é, com a personalidade consciente; pelo contrário, constitui uma grandeza que é preciso distinguir do eu. Tal exigência, naturalmente, só se verifica numa psicologia que se defronta com a realidade do inconsciente. Mas uma diferenciação desta espécie é da máxima relevância para essa Psicologia. Até mesmo para a aplicação da justiça é importante saber se determinados fatos são de natureza consciente ou inconsciente, como, por exemplo, quando se trata de julgar a respeito da imputabilidade ou não de um ato.

Por isso propus que a personalidade global que existe realmente, mas que não pode ser captada em sua totalidade, fosse denominada si‑mesmo. Por definição, o eu está subordinado ao si‑mesmo e está para ele, assim como qualquer parte está para o todo. O eu possui o livre‑arbítrio ‑ como se afirma ‑, mas dentro dos limites do campo da consciência. Empregando este conceito, não estou me referindo a algo de psicológico, mas sim ao conhecidíssimo fato psicológico da assim chamada decisão livre, ou seja, ao sentimento subjetivo de liberdade. Da mesma forma que nosso livre‑arbítrio se choca com a presença inelutável do mundo exterior, assim também os seus limites se situam no mundo subjetivo interior, muito além do âmbito da consciência, ou lá onde entra em conflito com os fatos do si‑mesmo. Do mesmo modo que as circunstâncias exteriores acontecem e nos limitam, assim também o si‑mesmo se comporta, em confronto do eu, como uma realidade objetiva na qual a liberdade de nossa vontade é incapaz de mudar o que quer que seja. É inclusive notório que o eu não é somente incapaz de qualquer coisa contra o si-­mesmo, como também é assimilado e modificado, eventualmente, em grande proporção, pelas parcelas inconscientes da personalidade que se acham em vias de desenvolvimento.

É de essência das coisas a impossibilidade de apresentar uma definição geral do eu que não seja de caráter formal. Qualquer outro modo de considerar o problema deveria levar em conta a individualidade que é inerente ao eu, como propriedade essencial. Embora os numerosos elementos que compõem este fator complexo sejam sempre os mesmos por toda parte, variam, contudo, ao infinito, fato este que afeta a sua clareza, a sua tonalidade emocional e a sua amplitude. Por isso o resultado desta composição, ou seja, o eu é, até onde podemos saber, algo de individual e único, que permanece de algum modo idêntico a si‑mesmo. Este caráter permanente é relativo, pois em certos casos podem ocorrer transformações na personalidade. Estas modificações nem sempre são de natureza patológica, mas determinadas também pela evolução, e por isso caem na esfera do normal.

Como ponto de referência do campo da consciência, o eu é o sujeito de todos os esforços de adaptação na medida em que estes são produzidos pela vontade. Por este motivo é que na economia psíquica o eu exerce um papel altamente significativo. A posição que ai ocupa é de tal modo importante, que o preconceito segundo o qual o eu é o centro da personalidade ou de que o campo da consciência é a psique pura é simplesmente destituído de qualquer fundamento. Excetuando‑se as alusões que encontramos em LEIBNIZ, KANT, SCHELLING e SCHOPENHAUER e os esboços filosóficos de CARUS e de VON HARTMANN, foi somente a psicologia moderna que descobriu, a partir do final do século XIX, com seu método indutivo, as bases da consciência, demonstrando empiricamente a existência de uma psique extraconsciente. Esta descoberta relativizou a posição até então absoluta do eu, quer dizer: este conserva sua condição de centro do campo da consciência; mas como ponto central da personalidade tornou‑se problemático. Constitui parte desta personalidade, não há dúvida, mas não representa a sua totalidade. Como já mencionei, é simplesmente impossível saber até onde vai sua participação; em outras palavras: é impossível saber se é livre ou dependente das condições da psique extra consciente. Podemos apenas dizer que sua autonomia é limitada e que sua dependência tem sido comprovada de maneira muitas vezes decisiva. Sei, por experiência, que é melhor não subestimar a dependência do inconsciente. É óbvio que não se pode dizer tal coisa àqueles que já sobrestimam a importância do inconsciente. Um critério para saber em que consiste a justa medida nos é dado pelas manifestações psíquicas subsequentes a uma apreciação errônea. Sobre isto voltaremos a falar mais adiante.

Dividimos o inconsciente, acima, em três grupos, sob o ângulo da psicologia da consciência, mas é possível dividi‑lo também em dois campos: de um lado, o de uma psique extra consciente, cujos conteúdos classificamos de pessoais e, do outro, o de uma psique cujos conteúdos qualificamos de impessoais, ou melhor, coletivos. O primeiro grupo compreende os conteúdos que formam as partes constitutivas da personalidade individual e, por isso mesmo, poderiam ser também de natureza consciente. O segundo grupo representa uma condição ou base da psique em geral, universalmente presente e sempre idêntica a si mesma. Evidentemente, uma afirmação como esta não é mais do que uma hipótese à qual fomos levados pela espécie de material que colhemos ao longo de nossas experiências, embora seja muito provável que a semelhança universal entre os processos psíquicos se deva a uma regularidade igualmente universal, da mesma forma pela qual o instinto que se manifesta nos indivíduos representa a expressão parcial de uma base instintiva universal.



(Jung, Aion, IX/2, §§1-12).



* Eranos‑Jahrbuch 1946 [Posteriormente intitulado: Theoretische Überlegungen. zum Wesen des Psychischen (Considerações teóricas sobre a natureza do psíquico)].

Escolha e Experiência




Experimenta a sensação da vivência de um dia voltado para o bem e a prática dos pensamentos puros de coração, das emoções nobres e sublimes.
Começa este dia com uma prece. Não uma prece como geralmente as pessoas fazem, de forma mecânica. Que ela saia espontânea de teu coração, envolvida em emotividade superior e nobre.
Coloca no som uma música suave e alegre, que o seu ritmo de força vibre de forma feliz.
Saúda os teus com expressões de amor, infundindo-lhes sentimentos de simpatia a teu respeito.
Evita, no transcurso do dia, toda emoção negativa, policiando tuas leituras, conversas, programas de rádio ou televisão.
Tuas conversações estejam sempre em torno de tudo o que é positivo e útil, afasta-te de pessoas sistematicamente pessimistas ou levianas, o que não significará que terás de viver longe delas, mas que apenas fazes uma experiência, a fim de encontrá-las menos, para voltares a auxiliá-las com melhores condições.
Envolve posições claras e precisas em teu sentimento de paz, desejando a todos felicidades e amor.
Medita, no transcorrer das horas, em Jesus, sua vida, gestos e palavras.
Procura a emoção que sentem os companheiros do Mestre, com a sua presença.
À noite, na hora de te recolheres, volve a mente em prece ao Pai de Bondade, louvando e agradecendo a paz que, com certeza, sentirás.
Desde essa experiência, e a partir dela, escolhe o teu caminho na vida: viver em tranquilidade e harmonia, ou na turbulência dos sentimentos desencontrados.

Etienne
Salvador, 03 de setembro de 1989.
Psicografia Djalma Argollo