Djalma Argollo
Um dos pré-requisitos essenciais ao se analisar uma publicação é situa-la na época em que foi escrita. Esse livro psicografado pelo médium Francisco Cândido Xavier, teve sua primeira edição publicada em 1943. Outro ponto é que o médium havia nascido em 1910. O que tem isso a ver? Tudo. O mundo em 1943 estava em plena segunda grande guerra, que foi de 01 de setembro de 1939 a 02 de setembro de 1945. O espírito que o ditou, segundo dados que ele próprio deixa escapar, deve ter nascido por volta de 1885 e desencarnado aos 45 anos, por volta de 1930/1931, por causa de uma obstrução intestinal por causa de câncer e sífilis. Enquanto encarnado formou-se e exerceu a medicina. Segundo o prefaciador espiritual do livro, o espírito Emmanuel, ele teria sido, além de médico, “e autor humano”, ou seja, escreveu e publicou livros.
A formação cultural, tanto do médium quanto do espírito remonta aos inícios da primeira metade do século XX. Por essa época quem escrevia tinha de demonstrar duas coisas: a) cultura, e b) erudição. Tinha portanto de demonstrar conhecimento e, além disso, usar a mais rebuscada forma de escrever possível. Por isso, o livro Nosso Lar, tem uma linguagem que, hoje, 80%, no mínimo, das pessoas que o leem, não entendem muitas palavras, nem as hipérboles usadas. Querem um exemplo? Aqui vai como o médico Henrique de Luna, estabelece a causa mortis do seu colega: Vejamos a zona intestinal – exclamou – A oclusão derivava e elementos cancerosos, e estes, por sua vez, de algumas leviandades do meu estimado irmão, no campo da sífilis. Olha, muitas pessoas não entenderão a metáfora “leviandades do meu estimado irmão, no campo da sífilis”, isto porque não seria elegante dizer: “por causa da frequência do meu estimado irmão aos prostíbulos”, o que aliás era hábito no século XX, até mais ou menos 1960, quando a pílula anticoncepcional democratizou a relação sexual.
A colônia Nosso Lar (?), colônia de que país espiritual? Colônia de férias? Colônia é fruto da mentalidade terceiro mundista do brasileiro à época. Inclusive é um problema esse “título” esdrúxulo, quando o livro é traduzido para outras línguas, por exemplo, tenho uma tradução para o inglês cujo título é: The Astral City. Ou seja, tiveram pudor em colocar o nome de “Astral Colony”? Ah, e toda a série Luizina, publicada em inglês, com o aval do CEI – Conselho Espirita Internacional, é dita ser “romance espírita”, eu tenho, por isso posso falar. Ou seja, tem o mesmo valor que qualquer obra de ficção: pura imaginação.
Ah! Cidade tem uma história: “Nosso Lar" é antiga fundação de portugueses distintos, desencarnados no Brasil, no século XVI. A princípio, enorme e exaustiva foi a luta, segundo consta em nossos arquivos no Ministério do Esclarecimento. Há substâncias ásperas nas zonas invisíveis à Terra, tal como nas regiões que se caracterizam pela matéria grosseira. Aqui também existem enormes extensões de potencial inferior, como há, no planeta, grandes tratos de natureza rude e incivilizada. Os trabalhos primordiais foram desanimadores, mesmo para os espíritos fortes. Onde se congregam hoje vibrações delicadas e nobres, edifícios de fino lavor, misturavamse as notas primitivas dos silvícolas do país e as construções infantis de suas mentes rudimentares”. Rapaz, não sei como os sociólogos e antropólogos sociais não entraram na justiça, ainda, contra essa frase absurda: “as notas primitivas dos silvícolas do país e as construções infantis de suas mentes rudimentares”, isso demonstra a mentalidade elitista da época, que tanto o o espírito, quanto o médium e a Federação Espirita Brasileira, em relação aos silvícolas, considerados seres inferiores a eles. Mas, não para só aí a história. Nosso Lar teve um período de conturbação social, com ações desonestas por parte de suas autoridade, que praticavam negócios ilícitos e clandestinos. Resultado, um novo governador decretou estado de sítio, prendeu os cabeças das facaltruas, e proibiu que se comesse outra coisa que não ar e água fluidificada. Tinha de ser brasileira, não há dúvida. Também, como houvesse ameaça de invasão da cidade, colocou em ação as armas defensivas, nos seus muros. “Tudo isso provocou enormes cisões nos órgãos coletivos de "Nosso Lar", dando ensejo a perigoso assalto das multidões obscuras do Umbral, que tentaram invadir a cidade, aproveitando brechas nos serviços de Regeneração, onde grande número de colaboradores entretinha certo intercâmbio clandestino, em virtude dos vícios de alimentação. Dado o alarme, o Governador não se perturbou. Terríveis ameaças pairavam sobre todos. Ele, porém, solicitou audiência ao Ministério da União Divina e, depois de ouvir o nosso mais alto Conselho, mandou fechar provisoriamente o Ministério da Comunicação, determinou funcionassem todos os calabouços da Regeneração, para isolamento dos recalcitrantes, advertiu o Ministério do Esclarecimento, cujas impertinências suportou mais de trinta anos consecutivos, proibiu temporariamente os auxílios às regiões inferiores e, pela primeira vez na sua administração, mandou ligar as baterias elétricas das muralhas da cidade, para emissão de dardos magnéticos a serviço da defesa comum”.
Nosso Lar está cheio de revelações sem qualquer prévia ou posterior explicação. A cidade Nosso Lar, está repleta de bosques, árvores, plantas e flores! Vindas de onde? Espíritos de vegetais desencarnados? Tem animais domésticos! Os espíritos desses animais que morreram? Tem “muares” e cães! São os fantasmas dos que aqui se finaram? Silêncio tumular.
Nosso lar tem moeda própria, logo uma economia: o bônus-hora. “O espírito que ainda não trabalha, poderá ser abrigado aqui; no entanto, os que cooperem podem ter casa própria. O ocioso vestirá, sem dúvida; mas o operário dedicado vestirá o que melhor lhe pareça”! Como assim? Tem indústria têxtil, para que o trabalhador possa “vestir o que melhor lhe pareça”?
“O bônushora, no fundo, é o nosso dinheiro. Quaisquer utilidades são adquiridas com esses cupons, obtidos por nós mesmos, a custa de esforço e dedicação. As construções em geral representam patrimônio comum, sob controle da Governadoria; cada família espiritual, porém, pode conquistar um lar (nunca mais que um), apresentando trinta mil bônushora, o que se pode conseguir com algum tempo de serviço”. Observe-se “Quaisquer utilidades são adquiridas com esses cupons”! Quer dizer que há comércio? O interessante é: “cada família espiritual, porém, pode conquistar um lar (nunca mais que um), apresentando trinta mil bônushora”. Ou seja, isto quer dizer que existem empresas de construções? Rapaz, quando li “Nosso Lar” , há muitos e muitos anos, me senti ludibriado. Diziam que tudo que se construía no mundo espiritual era construções mentais: eu queria uma casa, pensava nela e pimba, olha ela ali. Veio André Luiz e disse: nada disso, tem de comprar. Para mim as roupas eram questão de eu pensar que queria estar vestido, mentalizar o tipo e modelo e pronto, estava vestido na hora, André Luiz me desmentiu: pode vestir o que quiser, mas tem de pagar.
Para finalizar, Nosso Lar parece mais um convento, do que um “cidade” (o que na verdade não é, mas sim uma colônia, de que tipo não se sabe). E olha que nem falei do pretenso umbral, um maneira rebuscada e pretensiosa do autor espiritual se referir à região de passagem descrita por Frederic Myers, desencarnado, através da médium Geraldine Cummins. Umbral é uma palavra que vem do latim, e significa: soleira, ombreira!
Muita paz!