segunda-feira, 24 de junho de 2019

O eu



A circunstância de lidar com a psicologia do inconsciente fez-me deparar com fatos que exigem a elaboração de novos conceitos. Um destes conceitos é o do si‑mesmo (Selbst). Refiro-me, com isto, não a uma grandeza que venha ocupar o lugar daquela até o momento designada pelo termo eu, mas a uma grandeza mais abrangente, que inclua o eu. Entendemos por "eu" aquele fator complexo com o qual todos os conteúdos conscientes se relacionam. É este fator que constitui como que o centro do campo da consciência, e dado que este campo inclui também a personalidade empírica, o eu é o sujeito de todos os atos conscientes da pessoa. Esta relação de qualquer conteúdo psíquico com o eu funciona como critério para saber se este último é consciente, pois não há conteúdo consciente que antes não se tenha apresentado ao sujeito.

Esta definição descreve e estabelece, antes de tudo, os limites do sujeito. Teoricamente, é impossível dizer até onde vão os limites do campo da consciência, porque este pode estender‑se de modo indeterminado. Empiricamente, porém, ele alcança sempre o seu limite, todas as vezes que toca o âmbito do desconhecido. Este desconhecido é constituído por tudo quanto ignoramos, por tudo aquilo que não possui qualquer relação com o eu enquanto centro da consciência. O desconhecido se divide em dois grupos: o concernente aos fatos exteriores que podemos atingir por meio dos sentidos, e o que concerne ao mundo interior que pode ser objeto de nossa experiência imediata. O primeiro grupo representa o desconhecido do mundo ambiente, e o segundo, o desconhecido do mundo interior. Chamamos de inconsciente a este último campo.

O eu considerado como conteúdo consciente em si não é um fator simples, elementar, mas complexo; é um fator que, como tal, é impossível descrever com exatidão. Sabemos pela experiência que ele é constituído por duas bases aparentemente diversas: uma base somática e uma base psíquica. Conhecemos a base somática, partindo da totalidade das sensações de natureza endossomáticas, as quais, por sua vez, são de caráter psíquico e ligadas ao eu e, consequentemente, também conscientes. Estas sensações decorrem de estímulos endossomáticos que só em parte transpõem o limiar da consciência. Parte considerável destes estímulos se processa de modo inconsciente, isto é, subliminar. Este caráter subliminar não implica necessariamente um estado meramente fisiológico, o mesmo acontecendo com relação a um conteúdo psíquico. Eles podem, eventualmente, tomar‑se supraliminares, isto é, podem transformar‑se em sensações. Não há dúvida de que parte considerável dos estímulos endossomáticos é totalmente incapaz de se tornar consciente, e seu caráter é tão elementar, que não há razão para conferir‑lhe uma natureza psíquica, a menos que se partilhe a opinião filosófica segundo a qual os processos vitais são de fundo psíquico. Contra uma tal hipótese, que dificilmente será comprovada, deve‑se arguir, sobretudo, que ela estende o conceito de psique além de qualquer limite válido, tomando o processo vital, deste modo, num sentido que nem sempre tem o apoio dos fatos reais. Conceitos demasiado amplos revelam‑se em geral instrumentos inadequados de trabalho, por serem vagos e nebulosos. Por isso propus que o conceito de psíquico só fosse aplicado àquela esfera em que exista uma vontade comprovadamente capaz de alterar o processo reflexivo ou instintivo. Sobre este ponto, sou obrigado a remeter o leitor ao meu artigo "Der Geist der Psychologie" (O Espírito da Psicologia *), onde trato detalhadamente desta definição do psíquico.

A base somática do eu é constituída, como já apontei, por fatores conscientes e inconscientes. Outro tanto se pode dizer da base psíquica: o eu se assenta de um lado sobre o campo da consciência global e, do outro, sobre a totalidade dos conteúdos inconscientes. Estes últimos se dividem em três grupos:

(1) o dos conteúdos temporariamente subliminares, isto é, voluntariamente reproduzíveis;

(2) o dos conteúdos que não podem ser reproduzidos voluntariamente, e

(3) o dos conteúdos totalmente incapazes de se tornarem conscientes.

Pode‑se deduzir a existência do grupo número 2, dada a ocorrência de irrupções espontâneas na consciência de conteúdos subliminares.

O grupo número 3 é hipotético, isto é, uma decorrência lógica dos fatos que estão na origem do segundo grupo quer dizer, este grupo encerra conteúdos que ainda não irromperam ou jamais irromperão na consciência.

Ao afirmar acima que o eu se apoia sobre o campo global da consciência, não estou, de modo nenhum, querendo dizer que seja constituído por ele. Se isto acontecesse realmente, seria impossível distingui‑lo do campo da consciência. É apenas o ponto central, fundado e delimitado pelo fator somático acima descrito.

A despeito do caráter relativamente desconhecido e inconsciente de suas bases, o eu é um fator consciente por excelência. Constitui, inclusive, uma aquisição empírica da existência individual. Parece que resulta, em primeiro lugar, do entrechoque do fator somático com o mundo exterior, e uma vez que existe como sujeito real, desenvolve‑se em decorrência de entrechoques posteriores, tanto com o mundo exterior como com o mundo interior.

Apesar de desconhecermos os limites de suas bases, o eu nunca é mais ou menos amplo do que a consciência como tal. Como fator consciente, o eu pode ser perfeitamente descrito, pelo menos do ponto de vista teórico. Mas isto nada mais nos proporcionaria do que uma imagem da personalidade consciente, à qual faltariam todos os traços que o sujeito desconhece ou de que não tem consciência. Mas a, imagem global da personalidade deveria incluir também esses traços. É absolutamente impossível fazer uma descrição completa da personalidade, mesmo sob o ponto de vista teórico, porque uma parcela do inconsciente não pode ser captada. Esta parcela não é, de modo algum, irrelevante, como a experiência nos tem mostrado até à saciedade. Pelo contrário: há qualidades perfeitamente inconscientes que só podem ser observadas a partir do mundo exterior, ou para se chegar às quais é necessária muita fadiga, ou recorrendo até mesmo a meios artificiais.

É evidente que o fenômeno global da personalidade não coincide com o eu, isto é, com a personalidade consciente; pelo contrário, constitui uma grandeza que é preciso distinguir do eu. Tal exigência, naturalmente, só se verifica numa psicologia que se defronta com a realidade do inconsciente. Mas uma diferenciação desta espécie é da máxima relevância para essa Psicologia. Até mesmo para a aplicação da justiça é importante saber se determinados fatos são de natureza consciente ou inconsciente, como, por exemplo, quando se trata de julgar a respeito da imputabilidade ou não de um ato.

Por isso propus que a personalidade global que existe realmente, mas que não pode ser captada em sua totalidade, fosse denominada si‑mesmo. Por definição, o eu está subordinado ao si‑mesmo e está para ele, assim como qualquer parte está para o todo. O eu possui o livre‑arbítrio ‑ como se afirma ‑, mas dentro dos limites do campo da consciência. Empregando este conceito, não estou me referindo a algo de psicológico, mas sim ao conhecidíssimo fato psicológico da assim chamada decisão livre, ou seja, ao sentimento subjetivo de liberdade. Da mesma forma que nosso livre‑arbítrio se choca com a presença inelutável do mundo exterior, assim também os seus limites se situam no mundo subjetivo interior, muito além do âmbito da consciência, ou lá onde entra em conflito com os fatos do si‑mesmo. Do mesmo modo que as circunstâncias exteriores acontecem e nos limitam, assim também o si‑mesmo se comporta, em confronto do eu, como uma realidade objetiva na qual a liberdade de nossa vontade é incapaz de mudar o que quer que seja. É inclusive notório que o eu não é somente incapaz de qualquer coisa contra o si-­mesmo, como também é assimilado e modificado, eventualmente, em grande proporção, pelas parcelas inconscientes da personalidade que se acham em vias de desenvolvimento.

É de essência das coisas a impossibilidade de apresentar uma definição geral do eu que não seja de caráter formal. Qualquer outro modo de considerar o problema deveria levar em conta a individualidade que é inerente ao eu, como propriedade essencial. Embora os numerosos elementos que compõem este fator complexo sejam sempre os mesmos por toda parte, variam, contudo, ao infinito, fato este que afeta a sua clareza, a sua tonalidade emocional e a sua amplitude. Por isso o resultado desta composição, ou seja, o eu é, até onde podemos saber, algo de individual e único, que permanece de algum modo idêntico a si‑mesmo. Este caráter permanente é relativo, pois em certos casos podem ocorrer transformações na personalidade. Estas modificações nem sempre são de natureza patológica, mas determinadas também pela evolução, e por isso caem na esfera do normal.

Como ponto de referência do campo da consciência, o eu é o sujeito de todos os esforços de adaptação na medida em que estes são produzidos pela vontade. Por este motivo é que na economia psíquica o eu exerce um papel altamente significativo. A posição que ai ocupa é de tal modo importante, que o preconceito segundo o qual o eu é o centro da personalidade ou de que o campo da consciência é a psique pura é simplesmente destituído de qualquer fundamento. Excetuando‑se as alusões que encontramos em LEIBNIZ, KANT, SCHELLING e SCHOPENHAUER e os esboços filosóficos de CARUS e de VON HARTMANN, foi somente a psicologia moderna que descobriu, a partir do final do século XIX, com seu método indutivo, as bases da consciência, demonstrando empiricamente a existência de uma psique extraconsciente. Esta descoberta relativizou a posição até então absoluta do eu, quer dizer: este conserva sua condição de centro do campo da consciência; mas como ponto central da personalidade tornou‑se problemático. Constitui parte desta personalidade, não há dúvida, mas não representa a sua totalidade. Como já mencionei, é simplesmente impossível saber até onde vai sua participação; em outras palavras: é impossível saber se é livre ou dependente das condições da psique extra consciente. Podemos apenas dizer que sua autonomia é limitada e que sua dependência tem sido comprovada de maneira muitas vezes decisiva. Sei, por experiência, que é melhor não subestimar a dependência do inconsciente. É óbvio que não se pode dizer tal coisa àqueles que já sobrestimam a importância do inconsciente. Um critério para saber em que consiste a justa medida nos é dado pelas manifestações psíquicas subsequentes a uma apreciação errônea. Sobre isto voltaremos a falar mais adiante.

Dividimos o inconsciente, acima, em três grupos, sob o ângulo da psicologia da consciência, mas é possível dividi‑lo também em dois campos: de um lado, o de uma psique extra consciente, cujos conteúdos classificamos de pessoais e, do outro, o de uma psique cujos conteúdos qualificamos de impessoais, ou melhor, coletivos. O primeiro grupo compreende os conteúdos que formam as partes constitutivas da personalidade individual e, por isso mesmo, poderiam ser também de natureza consciente. O segundo grupo representa uma condição ou base da psique em geral, universalmente presente e sempre idêntica a si mesma. Evidentemente, uma afirmação como esta não é mais do que uma hipótese à qual fomos levados pela espécie de material que colhemos ao longo de nossas experiências, embora seja muito provável que a semelhança universal entre os processos psíquicos se deva a uma regularidade igualmente universal, da mesma forma pela qual o instinto que se manifesta nos indivíduos representa a expressão parcial de uma base instintiva universal.



(Jung, Aion, IX/2, §§1-12).



* Eranos‑Jahrbuch 1946 [Posteriormente intitulado: Theoretische Überlegungen. zum Wesen des Psychischen (Considerações teóricas sobre a natureza do psíquico)].

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