[299] Enfim, o que impulsiona a alguém a escolher seu próprio caminho, e a elevar-se como uma camada de nevoeiro acima da identidade com a massa humana? Não pode ser a necessidade, pois esta atinge a muitos e todos estes se salvam pelas convenções. A decisão moral também não pode ser, pois geralmente todos se decidem pela convenção. O que, pois, dá o último impulso a favor de algo fora do comum?
[300] É o que se denomina designação; é um fator irracional, traçado pelo destino, que impele a emancipar-se da massa gregária e de seus caminhos desgastados pelo uso. Personalidade verdadeira sempre supõe designação e nela acredita, nela deposita pístis (confiança) como em Deus, mesmo que na opinião do homem comum seja apenas um sentimento pessoal de designação. Esta designação age como se fosse uma lei de Deus, da qual não é possível esquivar-se. O fato de muitíssimos perecerem, ao seguir seu caminho próprio, não significa nada para aquele que tem designação. Ele deve obedecer à sua própria lei, como se um demônio lhe insuflasse caminhos novos e estranhos. Quem tem designação (Bestimmung) escuta a voz (Stimme) do seu íntimo, está designado (bestimmt). Por isso a lenda atribui a essa pessoa um demônio pessoal, que a aconselha e cujos encargos deve executar. Exemplo muito conhecido é o Fausto (de Goethe), e um caso histórico é o daimonion de Sócrates. Curandeiros de povos primitivos têm espíritos de serpente, como também Esculápio, o patrono protetor dos médicos, é representado pela serpente de Epidauro. Além disso, tinha como demônio pessoal o cabiro chamado Telésforo, que segundo parece lhe lia ou inspirava as receitas.
[301] O sentido primitivo da palavra alemã Bestimmung é o de que uma voz (Stimme) se dirige à pessoa[*]. Exemplos lindíssimos a respeito disso se encontram no Antigo Testamento. Isto não é apenas um modo de falar dos antigos; também o mostram as confissões de personalidades históricas, como Goethe e Napoleão, para citar apenas dois nomes bastante conhecidos de pessoas que não fizeram segredo de sua designação.
[302] A designação ou o respectivo sentimento não constitui apenas uma prerrogativa das grandes personalidades; também aparece nas pequenas personalidades e mesmo na menor delas, só que acompanhada do decréscimo da intensidade, tornando-se cada vez mais nebulosa e mais inconsciente. Parece que a voz do demônio interior se torna cada vez mais distante, mais rara e mais confusa. Quanto menor for a personalidade, tanto mais imprecisa e inconsciente se torna a voz, até confundir-se com a sociedade, sem poder distinguir-se dela, privando-se da própria totalidade para diluir-se na totalidade do grupo. A voz interior é substituída pela voz do grupo social e de suas convenções; em lugar da designação aparecem as necessidades da coletividade. A não poucos sucede que, mesmo estando nesse estado social inconsciente, são chamados por uma voz individual e assim começam a distinguir-se dos outros e a deparar com problemas a respeito dos quais os outros nada sabem. Em geral é impossível para esse indivíduo explicar às outras pessoas o que lhe aconteceu, pois existe como que um muro de fortíssimos preconceitos a impedir a compreensão. “A gente é como todo o mundo”; “tal coisa nem existe” ou, se existir, será naturalmente algo “doentio” e, além disso, sem finalidade alguma; é “uma pretensão descabida pensar que uma coisa dessas tenha importância”, “isso não é nada mais do que psicologia”. Justamente a última acusação é hoje em dia a mais popular. Provém da curiosa subestima de tudo o que faz parte da alma, e que é tido aparentemente como algo de arbitrário e pessoal; por esse motivo é considerado uma futilidade, apesar de contrastar paradoxalmente com todo o entusiasmo reinante pela psicologia. O inconsciente “não passa de fantasia”! Apenas “pensou-se” tal coisa etc. A gente quase se sente um mágico que por suas artes manipula o que é psíquico e lhe dá a forma caprichosa que deseja. Nega-se o que é incômodo, sublima-se o que é indesejável, afasta-se com explicações o que é angustiante, corrige-se o que se julga um erro; e tem-se por fim a impressão de ter colocado tudo na mais perfeita ordem. Mas nisso tudo foi esquecido o mais importante: que o psíquico não se identifica nem de longe com a consciência e com suas artes mágicas. A maior parte do psíquico consta de fatos inconscientes que, sendo duros e pesados como o granito, são imóveis e inacessíveis, mas podem desabar sobre nós a qualquer momento, conforme leis ainda desconhecidas. As catástrofes gigantescas que nos ameaçam não ocorrem nos elementos de natureza física ou biológica, mas são acontecimentos psíquicos. Ameaçam-nos de modo aterrador guerras e revoluções, que nada mais são do que epidemias psíquicas. A qualquer momento alguns milhões de homens podem ser acometidos de uma ilusão, e poderemos ter outra guerra mundial ou uma revolução devastadora. Em lugar de estar exposto a animais ferozes, à queda de rochedos, à inundação das águas, o homem se encontra agora ameaçado pelos poderes elementares de sua psique. O psíquico se tornou uma grande potência que supera muitas vezes todos os outros poderes da Terra. O esclarecimento (Aufklärung), que tirou da natureza e das instituições humanas tudo o que aí havia de divino, conservou aquele deus do terror que reside na alma. O temor de Deus em nenhum outro lugar é mais indicado do que aqui, a fim de proteger-nos contra o predomínio exagerado do psíquico.
[303] Mas tudo isso não passa de abstrações. Todos sabem que o intelecto de um sujeito extraordinário poderia dizer tudo isso do mesmo modo e de muitos outros ainda. É muito diferente, porém, quando este psíquico, que é objetivo e duro como granito, e pesado como chumbo, se apresenta ao indivíduo como uma experiência interior e lhe diz com voz audível: “assim será e assim deve ser”. Então ele se sente designado, do mesmo modo que os grupos sociais por ocasião de uma guerra, revolução ou outra ilusão qualquer. Não é em vão que nosso tempo clama por uma personalidade salvadora, isto é, clama por alguém que se distinga do poder inelutável da coletividade e assim se liberte a si mesmo psiquicamente, acendendo para os outros o farol da esperança, que atestará que pelo menos um único conseguiu escapar à identidade funesta com a alma do grupo. O grupo, por causa de sua inconsciência, é incapaz de tomar uma decisão livre; é por isso que no grupo o psíquico atua como uma lei natural desenfreada. Desencadeia-se uma série de acontecimentos, ligados entre si por causa e efeito, que apenas cessará quando ocorrer a catástrofe. O povo sempre suspira por um herói, por um exterminador de dragão, quando pressente o perigo do psíquico; daí provém o clamor pela personalidade.
[304] Mas o que tem a ver a personalidade individual com a necessidade de multidão dos outros? Em primeiro lugar, ela já faz parte do povo como um todo, e também se encontra à mercê do poder que move o todo, da mesma forma que todos os demais membros. A única coisa que distingue esse homem de todos os outros é sua designação. Ele foi chamado por aquilo que é o psíquico superpoderoso, aflitivo e geral, que é a necessidade sua e a do povo. Se ele obedecer à voz, sentir-se-á imediatamente diferente e isolado, porque decidiu seguir aquela lei que veio ao seu encontro e brotou de seu próprio íntimo. “Sua própria lei”, todos dirão. Só ele sabe, e só ele pode saber: Trata-se da lei e da designação. Tudo isso é tão pouco “próprio” dele como o leão que o matar, mesmo que fora de dúvida se trate daquele leão que o mata e não de outro qualquer. Apenas nesse sentido é que ele pode falar de “sua” designação e de “sua” lei.
[305] Pela decisão de colocar seu próprio caminho acima de todos os outros, já realizou grande parte de sua designação salvadora. Ele excluiu de sua via a validade de todos os outros caminhos. Ele colocou a sua lei acima de todas as convenções, afastando de si o que não apenas deixou de impedir o grande perigo, mas até mesmo o provocou. As convenções são em si mesmas mecanismos sem alma, que nada mais podem abranger do que a rotina da vida. A vida criadora fica sempre acima da convenção. Por isso deve haver uma erupção destruidora das forças criativas, quando predominar unicamente a rotina da vida na forma de convenções tradicionais. Essa erupção é catastrófica apenas como um fenômeno da massa, e jamais para o indivíduo que se submete conscientemente a essas forças superiores e coloca sua capacidade a serviço delas. O mecanismo das convenções conserva os homens inconscientes, pois então podem, à semelhança de animais selvagens, fazer mudanças há muito conhecidas sem ser preciso tomar uma decisão consciente. Essa atuação não intencionada por parte das melhores convenções é inevitável, mas nem por isso deixa de ser um perigo terrível. Tal como acontece com os animais, entre os homens que são mantidos inconscientes pela rotina também pode surgir o pânico, com todas as consequências imprevisíveis, se as novas circunstâncias não parecerem previstas pelas antigas convenções.
[306] A personalidade não deixa dominar-se pelo pânico dos que acordam, pois já superou o terror. Ela está sempre preparada para as mudanças da época; ela é líder (Führer), mesmo sem o saber e sem o querer.
[307] Certamente todos os homens são iguais uns aos outros, pois de outro modo não sucumbiriam à mesma ilusão. Também é certo que a camada psíquica mais profunda, sobre a qual se firma a consciência individual, é de natureza universal e da mesma espécie, pois de outro modo os homens não poderiam entender-se mutuamente. Sob esse aspecto, também a personalidade e suas propriedades psíquicas peculiares não representam algo de absolutamente único e singular. A singularidade se refere apenas à individualidade que a personalidade tem, como em geral a qualquer individualidade. Tornar-se personalidade não é prerrogativa exclusiva do homem genial. Pode mesmo alguém ser genial sem ter personalidade ou sem ser personalidade. Uma vez que cada indivíduo tem sua lei de vida que lhe é inata, cada um, em teoria, pode seguir esta lei acima das outras e assim tornar-se personalidade, o que significa atingir a totalidade. O ser vivente existe apenas sob a forma de uma unidade viva ou indivíduo, por isso a lei da vida se destina sempre a uma vida vivida individualmente. Somente podemos conceber o psiquismo objetivo como uma realidade universal e da mesma natureza, a qual significa a condição psíquica prévia e igual para todos os homens. Mas toda a vez que essa realidade quer manifestar-se, precisa individualizar-se, pois normalmente não existe outra escolha possível a não ser a de expressar-se por meio de um indivíduo singular. Ocorre também o caso de essa realidade apoderar-se de um grupo; mas isso, conforme o caso, apenas leva à catástrofe, pela simples razão de estar atuando apenas inconscientemente e não ter sido assimilada por nenhuma consciência capaz de harmonizá-la com as demais condições de vida já existentes.
[308] Somente pode tornar-se personalidade quem é capaz de dizer um “sim” consciente ao poder da destinação interior que se lhe apresenta; quem sucumbe diante dela fica entregue ao desenrolar cego dos acontecimentos e é aniquilado. O que cada personalidade tem de grande e de salvador reside no fato de ela, por livre decisão, sacrificar-se à sua designação e traduzir conscientemente em sua realidade individual aquilo que, se fosse vivido inconscientemente pelo grupo, unicamente poderia conduzir à ruína.
[309] Um dos exemplos mais brilhantes da vida e do sentido de uma personalidade, como a história no-lo conservou, constitui a vida de Cristo. Entre os romanos existia a presunção dos césares, e isto não era apenas uma propriedade do imperador, mas atingia a todo o cidadão–civis Romanus sum (sou cidadão romano). O cristianismo se apresentou como adversário dessa presunção, e por isso foi a única religião perseguida de fato pelos romanos, o que menciono apenas de passagem. Essa oposição se manifestava toda vez que o culto dos césares e o cristianismo colidiam entre si. Mas essa mesma oposição já tinha desempenhado um papel decisivo na alma do fundador do cristianismo, de acordo com o que conhecemos por meio das alusões dos evangelhos sobre o processo psíquico da formação da personalidade de Cristo. A história da tentação mostra-nos claramente com que poder psíquico Jesus colidiu: o demônio do poder, existente na psicologia de seus contemporâneos, que no deserto o levou a uma grave tentação. Esse demônio era o psiquismo objetivo, que prendia em sua esfera de ação todos os povos do Império Romano; por isso podia o tentador prometer a Jesus todos os reinos da Terra, como se quisesse fazer dele um César. Seguindo a voz interior, sua designação e vocação, Jesus se expôs de livre vontade ao ataque da presunção imperialista, que a todos inflava–vencedor e vencido. Com isso reconheceu a natureza da realidade psíquica objetiva que colocava o mundo inteiro em estado de sofrimento e ocasionava o desejo de salvação, expresso também pelos poetas pagãos. Esse ataque psíquico com o qual conscientemente se defrontou, ele nem o sufocou nem se deixou sufocar por ele, mas o assimilou. E deste modo surgiu do César dominador do mundo um reino espiritual, e do Império Romano o Reino de Deus, que é universal e não pertence a este mundo. Enquanto todo o povo judeu esperava um Messias, que ao mesmo tempo fosse um herói imperialista e atuante na política, cumpriu Cristo sua designação messiânica, não tanto para sua nação, mas muito mais para o mundo romano, ao chamar a atenção da humanidade para essa verdade antiga, que onde domina o poder não existe o amor, e que onde reina o amor o poder desaparece. A religião do amor era exatamente o traço psíquico oposto ao que havia de demoníaco no poderio romano.
JUNG, Carl Gustav. O Desenvolvimento da Personalidade. O. C., vol. 17. Editora Vozes. (Parágrafos inseridos no texto).
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