Com o Evangelho Pneumático, [1] Consolidou-se o trabalho de Paulo de Tarso, consciente ou inconsciente, de promover o sincretismo entre a mensagem judia de Jesus e o politeísmo. Nunca isto seria possível se a mensagem de Jesus permanecesse, como queriam o Apóstolos, circunscrita ao âmbito judaico. Ao que tudo indica, o plano de Jesus era, primeiramente consolidar o seu movimento entre os judeus, o que aconteceu razoavelmente bem, como se pode ver lendo o Atos dos Apóstolos. Em seguida, transplanta-lo para o mundo não judeu. Desde o início, a Comunidade do Novo Caminho, ou seja, da nova seita do Judaísmo, semelhante ao Caminho dos Fariseus, Caminhos dos Saduceus, Caminho dos Essênios, etc. Mas, para isso tinham de acontecer tinham de ser vencido a resistência judia de fraternização com os politeístas. Com a assimilação de judeus oriundos da diáspora na comunidade, muitos deles escravos libertos e gregos, o preconceito dos judeus nascidos na Palestina contra os que viveram entre os infiéis, logo se fez presente na nova comunidade: Ora, naqueles dias, crescendo o número dos discípulos, houve uma murmuração dos gregos contra os hebreus, porque as suas viúvas eram desprezadas no ministério quotidiano (Atos 6, 1). Estes não ficaram apenas na dissidência e reclamações interna corporis, mas começaram a estragar isso numa sinagoga separada feita para eles, o que já mostra o preconceito de que eram vítimas: uma Sinagoga dos Libertos, ou seja, de judeus que havia sido escravos, cuja liberdade, na maioria dos casos havia sido comprada. Mas eles nunca se livravam da marca, inclusive física pois eram marcados a ferro em brasa, da humilhante, dó opróbio, que tiveram a desventura de sofrer, pois o pensamento religioso era que eles passaram por isso por castigo de Deus, logo mereceram isso. Semelhante ao que dizem os espíritas em relação aos que nascem com restrições físicas ou que sofrem doenças graves ou acidentes e perdas graves na família; sofredores transformados em criminosos, por uma fantasiosa e preconceituosa Lei de Causa e Efeito, ou Karma, cuja origem está na dominação dos Dravidianos pelos Arianos, tendo dominadores criado castas, e inventaram que todos estavam na casta que mereciam, pelas ações passadas (carma significa atos, ações). E tinham de aceitar, resignadamente, sua condição sem se rebelar, pois somente assim, na outra existência, renasceriam numa vasta melhor, ou retornariam àquela da qual caíram!
Continuando o que estava escrevendo, é entre sinagogas de judeus, da diáspora, de diversas regiões, e um deles que pertencia à Comunidade do Novo Caminho, que surge uma grande divergência:
E Estêvão, cheio de fé e de poder, fazia prodígios e grandes sinais entre o povo. E levantaram-se alguns que eram da sinagoga chamada dos libertinos, e dos cireneus e dos alexandrinos, e dos que eram da Cilícia e da Ásia, e disputavam com Estêvão. E não podiam resistir à sabedoria, e ao espírito com que falava. Então subornaram uns homens, para que dissessem: Ouvimos-lhe proferir palavras blasfemas contra Moisés e contra Deus. E excitaram o povo, os anciãos e os escribas; e, investindo com ele, o arrebataram e o levaram ao conselho. E apresentaram falsas testemunhas, que diziam: Este homem não cessa de proferir palavras blasfemas contra este santo lugar e a lei; porque nós lhe ouvimos dizer que esse Jesus Nazareno há-de destruir este lugar e mudar os costumes que Moisés nos deu (Atos 6, 8-14).
Observe-se de pronto uma coisa: Estevão era do grupo dos que foram indicados para gerenciar a distribuição dos recursos dentro a Comunidade, quando da reclamação citada:
E os doze, convocando a multidão dos discípulos, disseram: Não é razoável que nós deixemos a palavra de Deus e sirvamos às mesas. Escolhei pois, irmãos, de entre vós sete varões de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria, aos quais constituamos sobre este importante negócio. Mas nós perseveraremos na oração e no ministério da palavra. E este parecer contentou a toda a multidão, e elegeram Estêvão, homem cheio de fé e do Espírito Santo, e Filipe, e Prócoro, e Nicanor, e Timon, e Pármenas e Nicolau, prosélito de Antioquia; E os apresentaram ante os apóstolos, e estes, orando, lhes impuseram as mãos (Atos 6, 2-6).
Observe-se, pelos nomes, e pela própria indicação, que todos eles eram da diáspora, pois a reclamação nascera deles, e foram os que indicaram. Ora, os Apóstolos haviam se preservado o privilégio da palavra, ou seja, de divulgação dos princípios estabelecidos por Jesus. Afinal eles haviam convivido com ele, durante os três anos de sua vida pública. Mas Estevão começou a se destacar pelos pródigos e sinais, ou seja, fazia curas e fenômenos eram produzidos por seu intermédio. Outro pormenor a se observar, é que os que reclamavam nunca haviam reclamado contra os Apóstolos. Por que isto? Porque Estevão atraia a atenção sobre eles, que já sofriam pesada discriminação, pois seu atos e palavras, naturalmente, eram vinculados a uma judeu que havia sido condenado pelo Sinédrio e pelos romanos. Na verdade, o que os motivou foi o medo de serem ainda mais perseguido. Que as autoridades judaicas se aproveitassem do que estava acontecendo, tendo um deles como personagem central, e transformassem a raiva e preconceito que sentiam por eles em perseguição ativa. Eles agiram em defesa própria. Foi um ato mesquinho, mas de sobrevivência. Foi uma mensagem à população que dizia: Ele é um de nós, não nos representa! Nós somos judeus obedientes a Lei de Moisés, e não concordamos com Estevão. No momento em que tem de fazer sua defesa, ele faz um discurso, onde resume a história do povo, como se encontra no que denominamos “Antigo Testamento”, e nele termina por mostrar como os líderes sempre traíram os princípios da Lei, e com uma forte invectiva:
Homens de dura cerviz, e incircuncisos de coração e ouvido; vós sempre resistis ao Espírito Santo; assim vós sois como vossos pais. A qual dos profetas não perseguiram vossos pais? Até mataram os que anteriormente anunciaram a vinda do Justo, do qual vós agora fostes traidores e homicidas; vós, que recebestes a lei por ordenação dos anjos, e não a guardastes. E, ouvindo eles isto, enfureciam-se em seus corações, e rangiam os dentes contra ele (Atos 7, 51-54).
É claro que, após essa denúncia seu destino era a execução. Mas ele ainda acrescenta mais. Motivos:
Mas ele, estando cheio do Espírito Santo, fixando os olhos no céu, viu a glória de Deus, e Jesus, que estava à direita de Deus; e disse: Eis que vejo os céus abertos, e o Filho do homem, que está em pé à mão direita de Deus. Então, eles gritaram com grande voz, taparam os seus ouvidos, e arremeteram unânimes contra ele (Atos, 7, 55-57).
Ou seja, nem precisaram deliberar, a sentença foi feita à revelia dos protocolos tradicionais, pois o crime de blasfêmia era, de todos, o pior. O próprio Jesus foi condenado por esse crime, por dizer palavras semelhantes.
Então:
E, expulsando-o da cidade o apedrejavam. E as testemunhas depuseram os seus vestidos aos pés de um mancebo chamado Saulo. E apedrejaram a Estêvão, que em invocação dizia: Senhor Jesus, recebe o meu espírito.E, pondo-se de joelhos, clamou com grande voz: Senhor, não lhes imputes este pecado. E, tendo dito isto, adormeceu (Atos 7, 58-60).
Por incrível que possa parecer ao senso comum, que sempre espera que as coisas espirituais aconteçam de acordo com a mais alta moralidade, o movimento de Jesus começou com sua prisão, tortura e assassinato. E o Cristianismo teve início da mesma forma, mas com uma diferença, enquanto Jesus era um ser humano altamente ético e moral, o fundador do cristianismo começou como cúmplice de um assassinato, perseguidor fanático e torturador. E fez mais pela divulgação do ensino de Jesus por todo o mundo greco-romano, do que todos os Apóstolos juntos.
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